O caos como arma

A manutenção da greve, apesar das generosas concessões feitas aos caminhoneiros, demonstra um inaceitável comportamento. O nome disso é chantagem e irresponsabilidade

O Estado de S.Paulo

25 Maio 2018 | 03h00

O governo, a Petrobrás e o Congresso atenderam à principal reivindicação dos caminhoneiros em greve, a redução do preço do diesel, mas nem assim esses profissionais aceitaram encerrar o movimento que tem trazido inúmeros e substanciais transtornos a todos os brasileiros. O nome disso é chantagem e irresponsabilidade.

Não bastou que a Petrobrás, num gesto de inegável boa vontade, contrariasse brevemente sua política de preços, de livre mercado, e aliviasse o custo do diesel em 10% por 15 dias, tempo em que se poderia chegar a uma solução negociada. Não bastou que o governo aceitasse zerar a alíquota da Cide, o imposto do combustível. Também não bastou que a Câmara aprovasse, a toque de caixa, a reoneração da folha de diversos setores em troca do fim da cobrança do PIS-Cofins sobre o diesel – uma forma de subsidiar o preço do combustível com o imposto cobrado de outros setores da economia. Os caminhoneiros informaram que vão continuar sua greve até que o Senado aprove o projeto que zera o PIS-Cofins sobre o diesel e que o presidente Michel Temer o sancione – o que só deve acontecer na semana que vem.

Enquanto isso, o caos se multiplica. Já se verifica desabastecimento de alimentos em diversas cidades do País. O transporte público está funcionando de maneira precária. Alguns importantes aeroportos informaram que em breve não terão mais combustível e terão de fechar. O atendimento na área de saúde começou a ser afetado. O preço da gasolina disparou nos postos, que registram imensas filas de consumidores desesperados. A manutenção de tal estado de coisas, apesar das generosas concessões feitas aos caminhoneiros, demonstra inaceitável comportamento, que deve ser punido com rigor. Do contrário, a sociedade viverá sempre na dependência dos humores e da agenda de agitadores cujos interesses privados estão muito longe de coincidir com os do resto do País.

A atitude atrevida dos grevistas mostra que os caminhoneiros se julgam em posição de força para ditar as condições da negociação, já que bastaram três dias de bagunça para que o governo, a Petrobrás e o Congresso lhes cedessem dedos e anéis. Não parece haver dúvida a esta altura que, de carona com o movimento dos caminhoneiros autônomos, estão grandes empresas de transporte e associações de produtores e distribuidores, todas interessadas em alguma forma de subsídio ao preço do frete. Mais uma vez, uma corporação organizada pretende obter vantagens econômicas à custa do conjunto dos contribuintes.

Também nessas horas é que aflora o oportunismo de políticos que, ao contrário, deveriam estar colaborando para debelar a crise. Senadores da base aliada subiram à tribuna para cobrar a demissão do presidente da Petrobrás, Pedro Parente, responsável pela reorganização da estatal depois que esta foi arruinada pela corrupção e pela inépcia da gestão petista. O alvo dos parlamentares é justamente a política de preços da Petrobrás, que promove reajustes de acordo com o mercado internacional, acabando com a interferência do governo para manter os preços dos combustíveis artificialmente baixos, gerando imenso prejuízo para a empresa. A demagogia da gasolina barata à custa do endividamento da Petrobrás foi um dos trágicos legados do mandarinato lulopetista, felizmente revertido no governo de Michel Temer.

No entanto, especialmente em ano eleitoral, a tentação do populismo é ameaça permanente ao bom senso. “Se o Pedro Parente não aceitar rever a política de reajuste, que ele saia da Petrobrás ou o presidente da República exerça o mínimo de autoridade. Um governo minimamente sólido já o teria demitido”, disse o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). Na mesma linha, o senador José Maranhão (MDB-PB) declarou que, ou Parente “cede aos interesses do Brasil ou deixa o cargo para alguém que tenha mais patriotismo”.

Vê-se assim, mais uma vez, a mistificação triunfar sobre a razão. Ficou claro que, quando a situação aperta, o País carece de líderes políticos capazes de enxergar além do estreito horizonte das eleições e de impedir que grupelhos submetam todo o País às suas vontades.

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