O carro híbrido

O governo não se entende sobre o que fazer para incentivar a produção de carros elétricos no Brasil. Na semana passada, o presidente Lula convocou os titulares de quatro Pastas (Fazenda, Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente) para recomendar-lhes que entrem em entendimento, depois do fiasco de uma reunião cancelada na qual deveria ter sido lançado um programa. Pelas suas últimas declarações, vê-se que o próprio presidente está muito confuso a respeito do tema. As divergências centram-se nos veículos flex, que não têm incentivos, assim como os movidos 100% a etanol e a gás. Aparentemente, uma parte do governo considera imprescindível a absorção pelas montadoras instaladas no País da tecnologia do carro elétrico. Mas outra parte teme que isso venha a prejudicar os carros flex e, por consequência, o etanol. Uma nova reunião ministerial foi marcada para o fim de junho.

, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2010 | 00h00

Algumas questões podem ser, desde já, levantadas. Todas as indústrias devem se esforçar ao máximo para desenvolver ou agregar novas tecnologias, e a do carro elétrico não é exceção. Mas, diferentemente do que alguns são levados a crer, essa opção em nada afeta o etanol ou os carros flex. Os veículos movidos exclusivamente a energia elétrica, além de muito caros, têm uma autonomia limitada e sua comercialização ainda é bastante restrita. Só veículos pequenos se vêm mostrando atraentes para o consumidor. O segmento que mais vem crescendo no exterior é o do carro híbrido, que combina motores de combustão interna com baterias elétricas recarregáveis.

Ora, se os motores são movidos a gasolina, podem sê-lo também a etanol. A indústria automotiva brasileira, pioneira no desenvolvimento do carro flex, pode avançar na produção de carros híbridos a etanol. Assim, em vez de ser reduzido, o mercado interno e externo para o álcool combustível produzido no País tenderia a se ampliar. Não haveria impedimento para a produção de carros 100% elétricos, mas a ênfase recairia nos híbridos. A Anfavea já informou que a produção local de carros elétricos no Brasil é tecnicamente viável, mas precisaria de estímulo para atrair investimentos. Estes poderiam vir mais facilmente na medida em que as montadoras daqui estivessem mais afinadas com a expansão prevista da demanda global.

O ponto mais controverso é o dos incentivos, tendo constado do documento que serviria de base para o programa oficial a redução do IPI, ICMS, IPVA, Imposto de Importação e bônus. Com a pesadíssima carga fiscal no Brasil, qualquer setor industrial gostaria de contar com incentivos. Mas, entre os mencionados, há evidentes excessos. Reduzir ou isentar o IPVA, um tributo estadual, para a compra de carros elétricos seria inédito. Houve até há pouco redução de impostos para aquisição de veículos, mas sobre a produção, não sobre o consumidor final.

É estranho também que tenha figurado na lista a diminuição do Imposto de Importação. No caso de carros de passageiros, cobra-se uma alíquota de 35%. Apesar dessa alta tarifa e do recolhimento de outros tributos, nunca foram importados tantos carros. De janeiro a abril, a importação de automóveis de passageiros atingiu US$ 2,170 bilhões (75,6% a mais que no mesmo período de 2009). Este já é, por sinal, o segundo maior item de nossa pauta de importação, só perdendo para a compra de petróleo em bruto (US$ 3,413 bilhões no primeiro quadrimestre).

Certamente, influi sobre a demanda de importados a concentração da produção automotiva no Brasil em modelos populares e médios. Há quem fale também em consumo suntuário. Não se pode deixar de lembrar que o Brasil também exporta carros (US$ 1,311 bilhão no quadrimestre), embora acuse um déficit de US$ 859 milhões nessa categoria até abril.

Seja como for, não se trata de criar mais facilidades para comprar carros prontos, elétricos ou híbridos, mas de fabricá-los no Brasil, não apenas por motivos tecnológicos, mas também ambientais. O que está faltando para isso é bom senso.

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