O castelo e a bomba

A pirâmide do crime, em que as pedras se acumulam, constrói o túmulo da nossa política

Flávio Tavares *, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2017 | 03h00

A interrogação é geral e está em todos os lábios: para onde vamos? Estamos num imenso corredor escuro em que acusados e acusadores se tocam uns nos outros sem saber se isso é um abraço ou um empurrão.

A vida político-institucional brasileira extraviou-se a si própria. Tudo o que agora vem à luz mais parece um imenso castelo de cartas no qual o leve roçar de um dedo faz com que a primeira derrube a segunda e esta, a de adiante, logo a seguinte, em quedas sucessivas que só concluem com o fim imediato do castelo em si.

É como na bomba nuclear - a do coreano louquinho Kim ou as anteriores -, em que as detonações se expandem umas sobre as outras, originando a destruição brutal e incontrolável.

Entre nós, após as explosões do início de setembro, já não sobra nada do castelo. A mancha cai sobre tudo e todos, numa vastidão que se expande a cada fato novo. Agora, não estão implicados apenas o atual presidente Michel Temer e seu círculo íntimo, ou senadores e deputados governistas ou da oposição. Também os ex-presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff e seus mais próximos no poder estão denunciados formalmente à Justiça.

Lula da Silva - que até bem pouco se autoproclamava “a alma mais honesta do Brasil” - surge como o chefe supremo da organização montada (com seus ministros) para transformar o poder numa gazua de arrombar cofres. Dos antecessores, Fernando Collor e José Sarney estão igualmente denunciados. A acusação contra Collor o implica numa roubalheira de R$ 450 milhões, já quando senador, após os dez anos de suspensão dos direitos políticos, ao ser corrido da Presidência da República.

Até bem pouco, pensávamos que o círculo do crime se fechava no alto empresariado corruptor, com a Odebrecht, OAS e outras grandes empreiteiras de obras públicas. Ou com os irmãos Joesley e Wesley, que, a partir da Friboi, construíram o império da JBS, que teve como um de seus altos executivos o atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Já isso bastaria para mostrar a expansão do horror.

Agora, porém, desponta o horror maior: até gente da Procuradoria-Geral da República aparece implicada no crime que eles próprios desvendavam ou ainda desvendam.

O caso do ex-procurador Marcelo Miller é um escândalo tipo arrasa-quarteirão, que polui o ambiente e nada deixa de pé. Quando procurador (e assessor direto de Rodrigo Janot), Miller preparou a “delação premiada” de Joesley e seus comparsas e, de imediato, renunciou ao posto e foi trabalhar no escritório que negociou o acordo. E jamais houve um “acordo de leniência” tão favorável aos corruptores, a ponto de que, mesmo culpados confessos, estão liberados de qualquer culpa.

No castelo de cartas, tudo se desdobra e cai. E aqui, as cartas enlouqueceram: agora, até Janot - símbolo concreto da luta contra a corrupção - aparece citado como eventual e futuro alvo a ser corrompido, junto com ministros do Supremo Tribunal Federal. Tudo leva a crer que o denunciante cometeu uma bravata, um reles palavrório exibicionista para demonstrar seu poder de fogo. Joesley Batista, além de dono de um império empresarial que ia da carne a chinelos de dedo e mil coisas mais, surge também como portador de uma megalomania patológica que beira a loucura.

Mas as fantasias patológicas também ocultam verdades, às vezes ínfimas, mas que levam a grandes descobrimentos.

A reação da presidente do Supremo Tribunal, ministra Cármen Lúcia, exigindo ampla investigação sobre o que disse Joesley a respeito de membros da Corte e da Procuradoria-Geral, ilumina o escuro ambiente atual. Como disse ela, temos direito “a um Judiciário honrado”. Mas vale perguntar: como a Polícia Federal e outros órgãos (como a Procuradoria-Geral) investigarão membros hierarquicamente superiores?

Na tal conversa de Joesley com seu comparsa, a bravata transparece acima de tudo. O brutal, porém, é a intimidade com que ele trata o então procurador Marcelo Miller, à época braço direito de Janot. Mais do que íntimo, desponta como um servo da corrupção desenvolvida pela JBS, que - nas palavras do corruptor - tinha Michel Temer como beneficiário direto pela “compra do silêncio” de Eduardo Cunha.

Para mostrar a extensão e a profundidade do horror, no entanto, nada supera aquelas cenas exibidas na TV: malas e sacolas com mais de R$ 51 milhões em cédulas encontradas no “bunker” de Geddel Vieira Lima, membro do núcleo íntimo do atual presidente da República e diretor da Caixa Econômica Federal quando a dupla Dilma-Temer governava.

A tempestade que, neste setembro, derruba o castelo de cartas vai se ampliar quando se divulgar a delação premiada de Lúcio Funaro, o doleiro que servia como operador do PMDB, lavando dinheiro sujo no estrangeiro. Já estão no pelourinho duas dezenas de membros do PP, partido paulo-malufista que (designado pelo PT) armou a corrupção na Petrobrás. Mais de um milhar de políticos do trio PT-PMDB-PP e de outros partidos (a começar pelo PSDB) aparecem nas delações premiadas, com o que o castelo se desmorona e fica sem cartas.

Essa pirâmide do crime, em que as pedras se acumulam umas sobre as outras, constrói o túmulo da nossa política. No Egito, as pirâmides eternizavam o faraó morto. Aqui, o crime busca se eternizar num monumental conluio em que tudo é terrorífico e destrutivo. Arrasa a verdadeira política da disputa de ideias e doutrinas. Destrói ou exclui os verdadeiros empreendedores e trabalhadores ao submetê-los à quadrilha de vândalos enriquecida à custa dos favores públicos derivados da corrupção.

Nossa pirâmide, felizmente, não é eterna. Ao contrário, é um simples castelo de cartas, que ao cair multiplica a explosão, tal qual bomba nuclear. Mas uma bomba “do bem”, que emerge do horror desnudado.

* JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA EM 2000 E 2005

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