O circo de Zelaya

Um político brasileiro, famoso por seu senso de onipotência, costumava dizer que reuniões das quais não participasse não valiam nada. É o que deve achar, à sua maneira, o ex-presidente Manuel Zelaya, o oligarca chavista de Honduras: eleições que ele não ganhe, ainda que por interposta pessoa, não valem.

O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2013 | 02h21

Domingo, o país caribenho de 8,3 milhões de habitantes, que tem a triste distinção de ser um dos mais pobres, mais violentos e mais expostos ao narcotráfico do mundo, foi às urnas escolher o sucessor do atual chefe de governo, Porfírio "Pepe" Lobo, além dos novos membros do Congresso e prefeitos.

O vitorioso deverá ser o conservador Juan Orlando Hernández, do governista Partido Nacional. Apurados mais de 60% dos votos, ele batia por 34,2% a 28,8% a candidata que Zelaya escolheu para concorrer por ele - a sua mulher, Xiomara Castro, do partido Liberdade e Refundação (Libre) que criaram em 2011. "Fraude!", bradou o marido.

É mais uma sessão desse circo mambembe. Deposto em junho de 2009 pela Justiça hondurenha por forçar a realização de um plebiscito ilegal que lhe permitiria reeleger-se indefinidamente, à maneira de seu mentor venezuelano, Zelaya foi sucedido meses depois por Lobo numa eleição que, para variar, o outro considerou inválida.

No dia da posse do vencedor, o chavista deixou a embaixada brasileira em Tegucigalpa - onde, graças à vergonhosa complacência do então presidente Lula, ficou asilado e fez política durante surrealistas quatro meses como se estivesse na sede de seu partido - mudando-se para a República Dominicana. De volta, tratou de ir à forra.

Não podendo candidatar-se de novo (Honduras não admite a reeleição, mesmo não consecutiva), lançou o nome de Xiomara. Envergando o mesmo tipo de chapéu de vaqueiro característico do marido, Xiomara, de 54 anos, mergulhou na campanha com a mesma atitude de confronto que havia exibido ao se juntar a ele na representação brasileira.

Nesse pleito disputado pela primeira vez por nove candidatos, em vez dos dois de praxe, ela teve o apoio do Foro de São Paulo, uma espécie de Internacional Socialista latino-americana. Ganhou ainda um vídeo apologético de Lula, o que levou a Justiça Eleitoral do país a cobrar explicações do embaixador brasileiro Zenik Krawctschuk. Perto do que ele fez em 2009, é o caso de comparar, isso é café pequeno.

As últimas pesquisas pré-eleitorais - divulgadas no limite legal de 30 dias antes da votação - indicaram empate técnico entre Hernández e Xiomara. A isso o casal se aferrou para alegar que a vantagem de cinco pontos dos governistas foi produto de um registro faccioso dos votos depositados por 61% do eleitorado, índice alto para o país, numa jornada sem incidentes (embora pelo menos 21 políticos tivessem sido assassinados no correr da campanha).

Cercado de ruidosos partidários, Zelaya anunciou na segunda-feira que "não aceitamos os resultados". No lugar da candidata, que estranhamente não deu o ar de sua presença nesse dia, ele ameaçou "ir às ruas" para defender o que declarou serem os seus direitos, "como sempre fizemos" - com as consequências conhecidas, acrescente-se.

Os aliados do líder populista sustentam haver "sérias inconsistências" em praticamente 1/5 das atas de apuração, que consignaram as escolhas de 400 mil hondurenhos. Eles acusam os responsáveis de "transmissão irregular de resultados" à central de consolidação dos números da disputa. Só que parecem falar sozinhos.

Autorizada pela Justiça a compilar pesquisas de boca de urna nas duas horas finais da votação e a obter dados diretamente das seções eleitorais, a mídia hondurenha não chegou a nenhuma contagem discrepante da oficial. E, até anteontem à noite, mais de 800 observadores estrangeiros, enviados por ONGs e órgãos como a Organização dos Estados Americanos e a União Europeia, tinham elogiado o processo eleitoral.

A vitória de Hernández já foi reconhecida por um punhado de países da região, entre os quais, surpreendentemente, a Nicarágua do chavista Daniel Ortega. Mas nada indica que isso fará diferença para Zelaya.

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