O circuito do comércio popular

A Prefeitura de São Paulo pretende investir R$ 250 milhões para organizar o comércio popular na região central da capital e, assim, estimular a sua revitalização. O prefeito Gilberto Kassab apresentou, na quinta-feira, o plano para a construção do Circuito das Compras que interligará os quatro maiores centros comerciais da área central - Brás, Sé, Santa Ifigênia e Bom Retiro - por meio de redes exclusivas de ônibus e vans.

, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2011 | 00h00

A infraestrutura planejada compreende a instalação de praças de alimentação, bolsões de estacionamento, guarda bagagens e hotéis. A Feira da Madrugada, que concentra um grande número de ambulantes, será organizada num novo shopping popular. No prazo de dois meses será publicado edital para a concessão desse shopping à iniciativa privada e, em um ano, Kassab quer algumas obras já concluídas.

A intenção é devolver à cidade o Pátio do Pari que, ao longo das últimas décadas, teve até mesmo o seu nome esquecido e passou a ser conhecido apenas como endereço da Feira da Madrugada. Ali, além de um complexo de compras com três andares, serão erguidos 1 hotel de 15 andares e 2 torres comerciais. Sete torres residenciais com 280 apartamentos também foram planejadas, e 3 novas ruas assegurarão a interligação entre os polos de compras.

Esse, em linhas gerais, é o plano da Prefeitura para organizar o comércio popular. A necessidade de criação desses centros é indiscutível. Os ganhos para a cidade, tanto do ponto de vista econômico quanto do urbano e social, serão grandes se o projeto for bem conduzido. Além dos altos investimentos, porém, é preciso muito cuidado para que, mais uma vez, uma iniciativa desse tipo não se frustre por falta da atenção à realidade e às características desse comércio.

Desde o governo de Luiza Erundina, sucessivas tentativas de organizar o comércio popular malograram porque a administração municipal impôs tantas exigências, e a um custo tão alto, que a adesão dos ambulantes foi quase zero. Em 2003, na administração Marta Suplicy, em parceria com a Associação Comercial de São Paulo, surgiram os Pop Centros para retirar das ruas os camelôs.

Eles contavam com infraestrutura para os camelôs trabalharem como comerciantes formais sem os custos, para eles altos, de uma microempresa. A primeira unidade foi construída na Rua Florêncio de Abreu e outras duas, no ano seguinte, na Avenida Senador Queiroz e na Ladeira Porto Geral. O projeto não deu certo, porque, apesar das concessões feitas, as exigências burocráticas e os custos exigidos para aderir a ele não eram realistas.

No lançamento do Circuito das Compras, as autoridades municipais afirmaram que, desta vez, a Prefeitura será parceira dos ambulantes. "Os comerciantes legalizados, os comerciantes que desejam se transformar em microempreendedores individuais serão nossos parceiros e todos eles permanecerão neste equipamento em condições melhores do que estão hoje", afirmou o secretário de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, Marcos Cintra. O prefeito, por sua vez, assegura que está envolvido na questão. "Estou do lado do trabalhador nessa briga, das pessoas corretas, que querem trabalhar com dignidade e correção. Estou pronto para comprar essa briga", afirmou.

Porém, é preciso criar condições para que os ambulantes entrem no mercado formal. Se, por um lado, é inaceitável que eles participem desse projeto sem nenhuma exigência, o que o transformaria num imenso camelódromo, por outro, é preciso ser realista e admitir que só em condições excepcionais - o que significa exigências mínimas - eles se formalizarão.

No momento em que a Prefeitura, por meio da parceria com a Polícia Militar, dentro da chamada Operação Delegada, está conseguindo finalmente retirar os camelôs ilegais das ruas, este é um esforço que vale a pena ser feito. Porque sem a organização do comércio popular em bases permanentes, como pretende a Prefeitura com seu Circuito das Compras, haverá sempre o perigo de os camelôs voltarem.

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