O clamor das turbas

Um zumbido ecoa forte nos ouvidos de governantes dos mais diferentes recantos do planeta, fruto de manifestações que tomam conta de praças e ruas de tradicionais centros urbanos. Em Istambul, na Turquia, na onda de um movimento que ocorre há semanas, a multidão derruba barricadas, enfrenta a Polícia e ocupa o mais importante espaço de concentração popular, a Praça Taksim, em revolta contra o governo, que pretende construir na maior área verde da capital, o Parque Gezi, um shopping center. São Paulo e Rio de Janeiro são palco de movimentos que arrastam grupos dos mais variados setores da sociedade em passeatas que culminam em vandalismo. O foco das ações mais retumbantes nas duas principais capitais do País é o protesto contra o aumento das passagens de ônibus, que mobiliza a estudantada sob bandeiras de alguns partidos (PSOL, PSTU e PCO e a Juventude do PT). Mas palavras de ordem, ecos e ruídos de grupamentos diversos também se fazem ouvir pelo território, a expressar uma locução em defesa de interesses de classes, etnias, gêneros e religião, entre outras frentes. A par das intenções explícitas de cada movimento, que lição se pode tirar da efervescência social que se expande pelos continentes e que se acentua em nossos trópicos?

Gaudêncio Torquato, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2013 | 02h07

O pano de fundo sobre o qual se projeta o cenário de movimentos populares, protestos e ondas de insatisfação deixa ver duas crises: a econômico-financeira e a política. A primeira, deflagrada em 2008, implicou estagnação do crescimento das nações, elevadas taxas de desemprego, alto custo dos alimentos e rebaixamento dos níveis de vida das comunidades, cujas referências mais simbólicas são a fila dos sem-teto em ruas de capitais charmosas (incluindo as metrópoles norte-americanas) e a escalada de desocupações de imóveis em países como Espanha e Portugal. Neste último, aliás, mais de 3 mil manifestações realizaram-se em 2012. Na esteira da crise financeira, emergiu em 2011 o movimento Occupy Wall Street, em Nova York, cujo escopo traduzia a inconformidade com as desigualdades, a corrupção, a influência das empresas e do dinheiro na política, bandeiras que passaram a ser desfraldadas noutras praças mundiais.

A segunda crise, a da política, tem que ver com a metáfora da panela de pressão: a válvula entupida não deixa escapar o vapor, gerando, assim, o "estouro da boiada". Mais precisamente, a ausência de respiro democrático jogou o povo nas ruas para exigir a abertura de canais de participação política e o fim de sistemas opressores. A avalanche tomou conta de cidades do Egito, Tunísia, Líbia, Síria e Bahrein, com o expressivo nome de Primavera Árabe, inaugurando um ciclo democrático que culminou com a derrubada de quatro governantes. Cumpriram papéis relevantes nesse processo as redes eletrônicas, que propiciaram a integração de grupos da comunidade internacional.

Esses tempos de grandes carências explicam o atual estágio civilizatório da maioria das nações. Resta lembrar, em complemento, a crise que assola a democracia representativa, que prometeu implantar (e não o fez) o ideário dos direitos humanos, a partir da igualdade de oportunidades entre as pessoas, o acesso de todos à Justiça, o combate ao poder invisível, a transparência dos governos e a educação para a cidadania, entre outros, como lembra Norberto Bobbio.

Os mecanismos clássicos da política saíram dos eixos: os espectros ideológicos perderam as cores originais; partidos transformaram-se em entes pasteurizados; os Parlamentos, sem força, tornaram-se reféns dos Poderes Executivos; as bases partidárias arrefeceram os ânimos. Formou-se, ao longo da cadeia de degradação, imenso vácuo entre a política e a sociedade. O cidadão comum, que tanto esperava dos políticos, passa a enxergá-los como "oportunistas e aventureiros", por trocarem o escopo de "servir" pela ambição de "servir-se". Frustrados, grupos de diferentes matizes se organizam em bastiões de defesa de interesses - associações, sindicatos, movimentos, federações, entidades que praticam uma nova ordem política. São esses novos polos, simbolizando um poder centrípeto, que animam a sociedade com sua forte capacidade de mobilização, fazendo ecoar uma peroração indignada.

Ganha corpo a hipótese de que essa gama de manifestações, aqui e alhures, é o primeiro desenho de democracia participativa na contemporaneidade, forma direta de a sociedade organizada entrar no circuito de pressões e reivindicações. O florescimento dessa modalidade é uma resposta ao desencanto com os costumes da velha política e suas promessas não cumpridas e, ainda, uma crítica aos precários serviços públicos. Chegamos, nesse ponto, à atualidade brasileira. Multiplicam-se as passeatas de protesto. Só em 2012, numa única via de São Paulo, a Avenida Paulista, ocorreram mais de 3 mil manifestações, algumas em choque com a Polícia, como a que aconteceu na quinta-feira. Os eventos são preocupantes pela quebra da ordem legal: atos de vandalismo e também atos de violência por parte da Polícia. Onde isso vai parar?

Sabe-se que, ao lado de questões objetivas, como redução do preço de passagens de ônibus, refrãos de um discurso mais abrangente são entoados, alguns proclamando "o aborto livre", outros exigindo o fim das "discriminações", o que inclui até o direito de meninos se vestirem de saias, como o incidente ocorrido há dias num colégio de São Paulo. Tudo passa a ser motivo para a quebra da normalidade. Na zona sul da capital paulista, ainda há poucos dias, a Polícia se confrontou com cerca de 500 famílias em ação de reintegração de posse de um terreno, conflito fundiário que também agita a população indígena em Sidrolândia (MS), onde morreu um índio terena. O clamor das turbas ganha volume em todo o País, a denotar insatisfação com o establishment. Os tempos são outros, mas Castro Alves continua lembrado: "A praça é do povo como o céu é do condor". Mas a praça não pode e não deve ser espaço para a violência.  

 

* Jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

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