O clima acelera; a diplomacia, não

É paradoxal: quanto mais se evidenciam as mudanças climáticas e mais graves são as notícias de desastres nessa área, mais parece crescer o ceticismo em torno da possibilidade de se chegar a um acordo global (porque precisa ter essa abrangência para ser efetivo) que possa reduzir em quantidade suficiente as emissões de gases que intensificam o efeito estufa e favorecem os "eventos extremos". Estamos deixando "a ganância levar vantagem", diz Jeffrey Sachs, que já foi um dos mais conceituados especialistas em finanças no mundo e hoje é professor da Universidade de Columbia e secretário-geral das Metas para o Milênio, da ONU.

Washington Novaes, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2011 | 00h00

É nesse ambiente de pessimismo que começa na segunda-feira, em Bangcoc, mais uma reunião preparatória da Convenção do Clima para o encontro decisório do final do ano na África do Sul. No final de abril haverá também uma reunião específica no México para tentar avançar com o projeto do Fundo Verde para o Clima, que tem como alvo os US$ 30 bilhões que os países industrializados se dispuseram em Copenhague a viabilizar para os mais pobres, na rota delineada para chegar a US$ 100 bilhões até 2020. Mas já sabendo - como advertiu a secretária-geral da convenção, Christiana Figueres - que "até agora países industrializados e os demais só anunciaram reduções de emissões correspondentes a 60% do que a ciência diz que precisa acontecer até 2020, para que a temperatura do planeta não suba além de 2 graus Celsius e não provoque desastres ainda maiores" (UNFCCC, 25/3).

Christiana Figueres tem "implorado" a todos os países que avancem mais e ao Japão, que não vete um novo Protocolo de Kyoto (o atual, que expira em 2012, permite a países industrializados financiar projetos redutores de emissões nos demais países e descontar as reduções no seu balanço próprio). Mas já tem pela frente uma posição anunciada pelos "emergentes" em Nova Délhi (UPI, 28/2): as propostas aprovadas em Cancún, em dezembro último, não são um bom caminho, não substituem o chamado roteiro de Bali, desenhado há alguns anos e até agora sem cumprimento. E Arthur Runge-Metzer, estrategista da União Europeia nessa área, acha quase impossível um acordo na África do Sul: considera o panorama "assustador" (Bloomberg, 24/3). Para complicar, um subcomitê do Congresso norte-americano retirou da Agência de Proteção Ambiental os poderes para regular emissões no país - solapando, assim, o centro da política do presidente Barack Obama para o clima (The New York Times, 10/3).

Segundo o Instituto Gallup, só 51% dos norte-americanos se dizem muito preocupados com a questão (eram 66% há três anos, segundo a CBS News).

Para complicar ainda mais a questão, o acidente nuclear no Japão coloca muitas dúvidas novas no cenário da energia. Como fará cada país, cada região, diante das ameaças evidenciadas? Cada um, cada uma, está reavaliando as usinas instaladas e se preparando para tomar posições. Para muitos, uma mudança nessa área pode significar problemas e custos imensos - como na França, no próprio Japão, na Rússia, nos EUA.

Enquanto isso, ao lado de relatos dramáticos sobre eventos extremos e suas consequências em várias regiões brasileiras e em outros países, cientistas advertem que a Groenlândia e a Antártida perderam mais gelo do que se previa, em consequência de uma elevação maior do que a esperada no nível dos oceanos (O Globo, 11/3). A Organização Mundial de Saúde afirma que os eventos extremos na Europa aumentaram 65% entre 1998 e 2007, período em que 40 milhões de pessoas ali pediram ajuda para os problemas de saúde e alimentação decorrentes - 400% mais que nas duas décadas anteriores. Relatório do Banco Mundial - Desenvolvimento e Mudanças Climáticas 2010 - assinala que 75% dos prejuízos com os eventos ocorrem nos países "em desenvolvimento". Se o aumento da temperatura ultrapassar 2 graus, o PIB da África e do Sudeste da Ásia poderá cair de 4% a 5%.

A destruição dos ecossistemas costeiros - manguezais, brejos e terras alagadiças à beira-mar - está liberando uma quantidade gigantesca de dióxido de carbono. Porque eles podem conter até cinco vezes mais carbono que as florestas tropicais, segundo o Grupo de Trabalho Internacional para Carbono Azul Costeiro (Conservation, 25/3). Em alguns pontos, podem ser 50 vezes mais.

Ainda estão sobre a mesa as intenções (não compromissos obrigatórios) dos países industrializados de reduzir suas emissões até 2020: de 20% a 30% sobre as de 1990, na União Europeia; 25% no Japão; de 15% a 25% na Rússia; 17% (calculadas sobre as de 2005) nos EUA, que pretendem chegar a 30% em 2015, a 42% em 2030 e a 83% em 2050. Mas tudo dependerá das futuras reuniões do clima.

O Brasil, que criou um "sistema nacional de alertas contra catástrofes naturais" e um Fundo Nacional sobre Mudanças Climáticas, com orçamento de R$ 238 milhões, tem fortes vulnerabilidades, segundo a publicação Clima e Energia, da Coppe-UFRJ. Principalmente no Nordeste (agravamento de secas, redução da produção de energia no São Francisco) e com impactos da elevação do nível do mar em vários pontos do País, especialmente no litoral fluminense. Mas o País só assume "compromissos voluntários" no âmbito da Convenção do Clima. Como o de reduzir as nossas emissões entre 35,1% e 38,8% sobre as que ocorreriam em 2020, pelo quadro observado em 2009. Segundo a convenção, isso inclui redução no desmatamento na Amazônia e no Cerrado (564 megatoneladas), restauração de pastagens naturais (83 a 104 megatoneladas), sistemas mais eficazes de alimentação do gado, métodos de cultivo mais adequados, fixação biológica do nitrogênio, eficiência energética, mais biocombustíveis, mais energia hidrelétrica, energias alternativas, substituição de carvão de matas nativas pelo de florestas plantadas em siderúrgicas.

Vamos ver em que dá isso tudo.

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