O clima esquenta, a agropecuária sofre

Aquecimento global não é problema que possa ser enfrentado apenas sacudindo os ombros

WASHINGTON NOVAES, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2018 | 03h00

É uma notícia que certamente contrariará os chamados “céticos do clima”, que põem em dúvida informações – até de cientistas respeitados – sobre o avanço alarmante dos problemas climáticos no mundo e seus possíveis desdobramentos, fruto em grande parte do chamado efeito estufa, gerado por emissões de gases para a atmosfera (dióxido de carbono, óxido nitroso e metano) desde o início da era industrial. Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), já estamos muito perto de atingir na primeira metade deste século o limite de aumento de 1,5 grau Celsius, ou mesmo de 2 graus, na temperatura terrestre – considerado pelos cientistas um nível mais seguro para o planeta e para as espécies que o habitam. É um limite desejável consagrado pelo Acordo de Paris (2015), assinado por quase todas as nações. E terá repercussões graves se for ultrapassado. principalmente para o setor agropecuário, que responde por 70% das emissões brasileiras (com a fermentação entérica dos rebanhos, o uso de fertilizantes e novos desmatamentos) – esses gases respondem por 25% a 33% das emissões globais.

Segundo relatório da Embrapa divulgado este mês, as emissões de gases estufa triplicaram nos últimos 50 anos, inclusive em escala mundial, por causa do aumento do consumo per capita, do crescimento da população (dobrou no período para mais de 7 bilhões hoje) e de seu padrão de vida e consumo. Para o Brasil a situação poderá ser muito difícil, ainda mais lembrando que o País na próxima década, segundo a FAO-ONU, terá a maior produção agrícola da mundo e será o maior exportador de alimentos e fibras – mas para isso ainda terá de resolver problemas complexos de desmatamento, perda da biodiversidade, eutrofização e acidificação de corpos d’água. São questões relacionadas com a necessidade de avanço para uma agricultura mais sustentável.

Já em 2009, na COP-15, em Copenhague, o Brasil se comprometeu a reduzir até 2020 entre 36,1% e 38,95% de seus gases – e para isso criou um Plano Setorial de Mitigação a Adaptação ao Clima. Na COP-21, de 2015, a proposta foi de 37% sobre os gases do efeito estufa emitidos em 2005 – proposta para vigorar até 2027 e subir para 43% daí até 2030. Hoje são 14 milhões de hectares no sistema que congrega lavouras, pecuária e florestas.

Mas uma análise do Institute of Atmospheric Physics já projeta, com novo método de análise, um aquecimento de 4 graus Celsius (comparado com níveis pré-industriais) até 2084. Na China há análises semelhantes. E muitos outros institutos preveem até o fim deste século esse mesmo aumento de 4 graus. Com efeitos como calor recorde, inundações pesadas, secas extremas, aquecimento de oceanos.

São previsões que exigem mudanças imediatas e sem precedentes na economia mundial, como se discutiu na recente Conferência de Incheon, com fortes reações de EUA e Emirados Árabes, que defenderam os combustíveis fósseis. Mas ao final houve acordo conciliador.

Membro do IPCC, o professor Paulo Artaxo, da USP, pensa que muitos efeitos do aquecimento já são percebidos e serão intensificados antes que o aumento da temperatura atinja 1,5 grau. Entre os que já discutem o aumento, são citados escassez de alimentos, redução da biodiversidade, enchentes, mortalidade em massa de recifes de corais, elevação do nível do mar, ondas de calor, ciclones tropicais, disseminação de doenças.

O que acontecer entre 2018 e 2030 será determinado pelas emissões de dióxido de carbono. Entre os fatores mais citados pelos cientistas nesse âmbito, surge com insistência a necessidade de banir os combustíveis fósseis, principais geradores de emissões. Mas enfrentam resistência muito forte de empresas que atuam na produção e no comércio nesse setor. Assim como do setor que trabalha com madeiras na Amazônia brasileira. Relatório especial do IPCC, preparado a pedido do Fórum Mundial dos Cientistas, recomenda reduzir à metade os crimes globais nessa área, até 2020. Porque florestas têm papel central no panorama, assim como savanas e outras formas de vegetação natural, para captura do dióxido de carbono já presente na atmosfera. Também é indispensável trabalhar na restauração de florestas.

A resistência, diz o relatório, está na agropecuária, que responde por 70% das emissões, incluindo a fermentação entérica, e essa é mais uma razão para acelerar a transição para uma matriz energética neutra em carbono. Essa é, porém, uma das notícias que costumam ser contestadas pelos que têm interesses particulares questionados. Trata-se, entretanto, de estudos que põem em xeque análises atuais sobre matrizes energéticas e suas relações como a economia global ou investimentos estatais e privados. Precisam ser considerados e induzir modificações.

Na atual campanha presidencial, o candidato Jair Bolsonaro, em entrevistas, disse que a permanecer no acordo o Brasil teria de pagar “um preço caro para atender às exigências” e que “a soberania do País está em jogo”; Fernando Haddad, em seu plano de governo, comenta “como instituir uma política de transição para uma economia de baixo carbono e que pretenda honrar o acordo” (naofracking Brasil, 9/10).

Seja como for, a questão terá de ser encarada frontalmente. Aquecimento global, atingindo todos os continentes, todos os países, todos os viventes, não é problema que possa ser enfrentado apenas sacudindo os ombros e seguindo em frente com um assovio. Os preços são altos. Por mais que os “céticos do clima” neguem os efeitos desastrosos, eles estão diante dos olhos de quem queira ver. E afetam o bolso dos produtores.

É urgente que em cada país afetado os governos competentes concebam e executem planos de emergência, seguidos de políticas de maior prazo. Capazes de tranquilizar os países importadores. E os produtores locais. Além de afastar em escala global os dramas que começam a atingir todos produtores, importadores, consumidores.

*JORNALISTA

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