O clube VIP da Câmara

São 7.138 os cidadãos brasileiros em pleno gozo de seus direitos políticos que aspiram a uma das 513 cadeiras em disputa na Câmara dos Deputados. Disputa, a rigor, é modo de dizer. As chances de sucesso dos candidatos são mais desiguais do que é capaz de conceber o eleitor comum que se prepara para apertar o botão da urna eletrônica - e que muito provavelmente confirmará com o seu voto o enorme desnível de oportunidades entre os que se propõem a representá-lo. Para uma minoria "diferenciada", seja quais forem as siglas pelas quais os seus membros se registraram para a conquista ou a manutenção de um assento na denominada Casa do Povo, só em casos excepcionais o resultado da votação será decepcionante.

O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2014 | 02h05

A compilação de uma série de pesquisas do Ibope em 18 unidades da Federação, publicada domingo no Estado, não deixa dúvidas sobre os motivos pelos quais a Câmara merece ser chamada - entre tantos outros rótulos que se lhe queiram pespegar - "casa de famílias". Em poucas palavras, ou melhor, números, trata-se do seguinte: dos 90 nomes mais lembrados pelos eleitores que o instituto entrevistou, uma acachapante maioria de 87 tem parte com a política. Destes, 55 são ou foram deputados federais; 19 são ou foram deputados estaduais; 9 já ocuparam cargos de executivos ou de vereador; e 4 têm familiares políticos. Só os 3 restantes participam pela primeira vez de um pleito e não têm parentes na política.

Extrapolando tais dados para o conjunto da Federação e do eleitorado "ativo" - aqueles que não invalidarem os seus votos nessa eleição específica -, chega-se à conclusão de que 496 dos candidatos vitoriosos (em 513, repita-se) deverão o seu êxito ao fato de fazer parte de um clube tão seletivo como secular - chamado ora classe política, ora estamento político, ora oligarquia política, ora ainda coronelato político -, cujos membros pertencem a linhagens que se reproduzem eleição após eleição, geração após geração, graças às azeitadas engrenagens do nepotismo ou do filhotismo. Supondo iguais todas as outras variantes que pesam no desfecho de uma competição eleitoral, eles enfeixam uma sequência de privilégios decisivos.

Entre eles figuram receber dos partidos os números mais fáceis de serem memorizados pelo público, amealhar doações mais robustas dos costumeiros financiadores de campanhas (o que gera efeitos favoráveis em cascata na jornada até as urnas) e aparecer mais do que os seus desvalidos correligionários competidores no tempo de propaganda das respectivas coligações. É um arranjo conveniente para todos, menos para os que exclui - e, vai sem dizer, para o sistema de representação popular atingido por essa perversão. Pois o candidato da classe especial, recebendo quase sempre mais sufrágios do que necessitaria para garantir o seu lugar na Câmara, revela-se um "puxador de votos", carregando para o plenário outros aspirantes da mesma legenda ou coligação. E créditos para a próxima eleição.

Essa realidade imune ao disseminado desejo de mudança dos costumes políticos nacionais - até porque o voto de protesto, nulo ou branco, não altera a relação de forças entre os candidatos VIPs e os demais - se entrelaça com outra característica desalentadora do jogo eleitoral na esfera do Legislativo. Também no último fim de semana, o jornal Valor publicou uma projeção dos resultados, por partidos e candidatos, para a Câmara. De autoria do Instituto Análise, o estudo estima que 70% dos 391 deputados que se candidataram a novo mandato deverão se eleger. Somando os possíveis não reeleitos aos 122 parlamentares que pretendem fazer outra coisa na vida a partir do ano que vem - como, por exemplo, tornar-se senadores -, o levantamento prevê que o índice de renovação da Casa será da ordem de 35% apenas.

Grosso modo, portanto, para cada deputado de primeira viagem na próxima legislatura haverá dois veteranos - a velha e malfalada turma de sobrenomes conhecidos que conhecem o caminho das pedras. "Não existe nenhum motivo para que o próximo Congresso seja diferente", argumenta o cientista político Carlos Melo, do Insper. "Ele continua se elegendo pelos mesmos mecanismos, o recrutamento dos candidatos é o mesmo e os partidos não inovam."

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