O combate à dengue

Nos primeiros quatro meses do ano, houve uma redução de 49% nos casos de dengue no País, em comparação com o mesmo período de 2008: de 440.360 para 226.513. Mas a taxa de letalidade da doença é seis vezes maior do que a aceita pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Até 30 de abril, morreram 87 pacientes vítimas da dengue hemorrágica e de suas complicações, o que corresponde a 6% dos casos registrados no País. Oito Estados concentram 78% das ocorrências (Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Acre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Amapá). Mais da metade das mortes foi registrada na Bahia (49). Os números mostram que o combate ao mosquito e a capacitação da rede hospitalar para atendimento dos doentes não foram feitos de maneira uniforme em todo o País. Em muitos municípios, principalmente naqueles em que os prefeitos não se reelegeram ou não fizeram seus sucessores, a prevenção e a melhoria dos serviços de saúde foram negligenciadas. Recursos não faltaram: o Ministério da Saúde liberou R$ 1,08 bilhão para trabalhos de prevenção da doença, como a distribuição de nebulizadores e pulverizadores para combate aos criadouros do mosquito. Nem todos os governos estaduais e municipais mostraram-se eficientes na organização das ações de combate ao mosquito e da educação da população para evitar a propagação dos criadouros. Em alguns dos municípios mais atingidos pela dengue, a situação não teria chegado ao ponto a que chegou se as autoridades tivessem concentrado recursos públicos na compra de larvicidas e de tampas para caixas d?água - um dos principais criadouros do transmissor. A Atenção Básica à Saúde também não funcionou em grande parte dos municípios mais atingidos pela doença. Devidamente instruídas, as equipes de agentes de saúde podem orientar a população sobre os cuidados para evitar a formação e extirpar criadouros. Também transmitem informações sobre os cuidados que a população deve ter com seus domicílios e espaços comunitários. Cada morador que recebe a visita dessas equipes é, assim, estimulado a cuidar de si, da sua casa e também da sua vizinhança. Essas ações dos governos locais podem ser planejadas com precisão tendo por base o Levantamento Rápido de Índices de Infestação por Aedes aegypti (LIRAa), metodologia que monitora o número de mosquitos da dengue no meio ambiente. É um levantamento que permite atacar os criadouros em tempo oportuno. O LIRAa é realizado a partir da divisão do perímetro municipal em grupos de até 12 mil imóveis. Em cada um desses grupos, 450 imóveis são sorteados e, neles, os agentes de saúde avaliam a presença de larvas. Determinam, assim, o índice de infestação do local. Se o mosquito for encontrado em até 3,9% dos imóveis visitados, a situação é de alerta. Acima disso, há risco de surto de dengue. O combate à dengue só é bem-sucedido quando ao monitoramento dos índices de infestação pelo mosquitos se somam a eficácia dos agentes de saúde e o bom atendimento aos doentes. Estudos internacionais mostram que uma rede assistencial eficaz é capaz de resolver entre 65% a 75% dos casos de dengue. Para que se cheque a isso há que organizar detalhadamente os serviços, partindo da capacitação dos profissionais para que todos conheçam os protocolos de assistência e localizem precocemente os infectados, dispensem o tratamento necessário, notifiquem e acompanhem os casos. O coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue, Giovanini Coelho, explicou em entrevista ao Estado que o aumento do número de mortes registradas no País neste ano está diretamente associado à deficiência no atendimento, sobretudo na atenção básica. "Quando a hidratação é feita rapidamente, há redução significativa do risco de o paciente piorar." Em Belo Horizonte, por exemplo, apesar do elevado número de casos da doença, não há óbitos confirmados. Se há recursos financeiros e meios para treinamento e capacitação é injustificável o alto índice de mortes provocadas pela dengue.

, O Estadao de S.Paulo

20 de maio de 2009 | 00h00

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