O conflito entre o BC e o mercado

Como lhe cabe - até por função, se não por obrigação -, o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, avisou, pela segunda vez, que as taxas no mercado de juros futuro estavam excessivamente elevadas em relação às expectativas do instituto de emissão. Sua advertência, que aliás já constava da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), teve o efeito de favorecer, anteontem, uma queda das taxas naquele mercado, que se consolidou no dia seguinte.O que nos parece interessante é tentar mostrar a diferença de visão entre o BC e o mercado - diferença que já se havia manifestado em relação ao corte de 1 ponto porcentual (p.p.) na taxa Selic na última reunião do Copom, surpreendendo o mercado, que havia previsto um corte de apenas 0,75 p.p. Desde essa reunião, há uma profunda divergência nas previsões do mercado e do BC.No Relatório da Inflação, as autoridades monetárias preveem para o IPCA uma variação abaixo da meta central de inflação, fixada em 4,5% pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), até 2011, com inflação menor em 2010 do que em 2009. Já o mercado futuro reflete uma inflação crescente de dezembro de 2009 a dezembro de 2011.Aliás, a Pesquisa Focus mostra uma expectativa de aumento constante do IPCA, apesar de uma taxa cambial, no final de 2010, igual à de 2009, e um crescimento do PIB de 3,5% para 2010, depois de um ligeiro recuo em 2009.Mas, enquanto o BC admite que o superávit primário de 2,5% do PIB, em 2009, e de 3,3%, no ano seguinte, será respeitado, o mercado está cético diante do estratagema do governo para elevar esse superávit e está preocupado com a administração das finanças públicas num ano de eleição - em vista, sobretudo, da política fiscal que o governo conduz já neste ano.É possível que o mercado esteja levando em conta uma possível mudança da política monetária do Banco Central, visto que, para formalizar sua adesão a um partido e assim poder concorrer ao governo de Goiás, seu presidente terá de se afastar já em setembro deste ano.A advertência feita por Meirelles teve algum efeito no mercado, reduzindo as taxas de juro futuro, que no entanto ainda estão longe de refletir as previsões do BC e indicam, com a margem de risco nelas embutida, que há sérias apreensões sobre a conduta que o governo vem adotando e que poderá desembocar numa retomada da inflação e em nova elevação da taxa Selic em 2011, caso o Copom permaneça responsável.

, O Estadao de S.Paulo

16 de julho de 2009 | 00h00

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