O conflito no Oriente Médio em nova fase

A eliminação de Osama bin Laden e a movimentação popular desafiando os regimes ditatoriais de diversos países do Oriente Médio e do Norte da África abriram uma oportunidade para que o presidente norte-americano fizesse dois pronunciamentos históricos indicando sua visão (não se trata de uma proposta) sobre o encaminhamento do processo de paz entre Israel e a Palestina e sobre o apoio dos EUA às perspectivas democráticas para o mundo árabe.

Rubens Barbosa, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2011 | 00h00

As manifestações de Barack Obama são importantes porque é a primeira vez que um presidente norte-americano adota posição mudando totalmente a política dos EUA no tocante às fronteiras entre Israel e a Palestina e à segurança do Estado de Israel. George W. Bush havia aceitado a "ocupação dos maiores centros de população israelense já existentes", além das fronteiras de 1967.

No lance mais arriscado de sua política externa, o presidente Obama, a um ano da eleição presidencial, fez um segundo discurso na mais importante instituição do lobby judaico nos EUA e reiterou os pontos principais da nova política, reafirmando o respaldo "indestrutível" a Israel.

Obama afirmou que "os EUA acreditam que as negociações devem resultar em dois Estados. As fronteiras precisam ter como base as linhas pré-1967, com troca de territórios após acordo entre as duas partes. O povo palestino deve ter o direito de se governar, atingir o seu potencial e viver num Estado soberano e contínuo. (...) A retirada militar das forças israelenses deve ser coordenada com as forças de segurança palestina num Estado desmilitarizado". A ocupação de partes do território palestino pelos assentamentos israelenses é uma "humilhação", acrescentou Obama.

A reação israelense foi imediata e previsível. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em encontro com Obama na Casa Branca, não deixou dúvidas: a proposta do presidente dos EUA de fronteiras pré-1967 deixaria Israel numa posição "indefensável", por isso "não acontecerá" e Israel nunca aceitará essa solução. O premiê israelense falará hoje em sessão conjunta do Congresso americano para uma plateia sensível ao lobby judaico e predisposta a aceitar seus argumentos contra a proposta de Obama.

Os pronunciamentos de Barack Obama são ousados, mas oportunos. O mundo mudou. As manifestações em favor da democracia e da liberdade se multiplicam em todos os cantos do mundo. Nesse contexto, o conflito do Oriente Médio continua muito complexo, porque as lideranças israelenses, sobretudo as mais ortodoxas, com crescente influência na política em Tel-Aviv, ainda pensam em termos do Velho Testamento, falam de "Judeia e Samaria" e veem um único território entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo.

Em 1947, as Nações Unidas aprovaram resolução criando o Estado de Israel, mas também - muita gente esquece - o Estado Palestino. Por motivos fáceis de explicar, o Estado de Israel foi criado, mas até hoje não foi possível completar o decidido pela comunidade internacional há quase 65 anos.

Hoje, o essencial é a negociação de um acordo de paz que garanta o reconhecimento do Estado de Israel e a segurança de suas fronteiras e também a soberania de um Estado Palestino.

A segurança de Israel começa com o compromisso entre o Fatah e o Hamas com a não violência e o fim dos ataques ao território israelense, com a aceitação pelos palestinos de um Estado desmilitarizado e com a criação de um Estado independente, que poria fim à disputa territorial.

A segurança palestina começa com o que o presidente Obama chamou de "completa e gradual retirada das forças israelenses de segurança, incluindo as da área fronteira do Rio Jordão, e com a remoção de todos os assentamentos que não estiverem cobertos pelas trocas de terras acordadas mutuamente".

Não há dúvida de que se trata de uma questão difícil - e a diplomacia, não a força, existe para superá-la -, mas a solução é factível, se houver realmente empenho e envolvimento da comunidade internacional, liderada firmemente pelos EUA.

As fronteiras pré-67 não são indefensáveis, como disse Netanyahu. Indefensável, por muito mais tempo, é a humilhante - como disse Obama - colonização do povo palestino.

É esse o cenário diplomático para os próximos meses, até a Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro, quando a Autoridade Palestina vai apresentar a proposta unilateral de criação de um Estado independente ao lado de Israel. O pedido poderá ser um passo equivocado por parte da Autoridade Palestina. O presidente Obama, no mesmo pronunciamento, já adiantou que seu governo não apoiará a resolução, que, por isso, será um gesto simbólico, sem consequências políticas, pois sua aprovação não mudará nada na região, nem no destino dos palestinos.

No contexto da nova posição dos EUA, é importante lembrar a mudança de atitude no mundo árabe em relação ao conflito. Há uma crescente disposição de buscar uma solução não radical que pacifique a região.

Em 2002, quando embaixador em Washington, acompanhei as conversas em torno de proposta feita pelo rei Fahd, da Arábia Saudita, ao presidente Bush para reavivar o processo de paz, que havia avançado com o presidente Bill Clinton, mas fracassou por intransigência de Yasser Arafat. A proposta, verdadeira revolução da posição dos países árabes, em troca da criação do Estado Palestino, previa o reconhecimento de Israel por todos os Estados árabes (hoje somente o Egito e a Jordânia) e a garantia de segurança das fronteiras e do território israelense.

O presidente Obama trouxe a questão para o centro das discussões pela comunidade internacional. Depois de seis décadas de sofrimento vivido pelas populações dos dois lados e de instabilidade política, chegou a hora de resolver o problema. Para isso o Brasil poderá contribuir com uma posição equilibrada e ativa.

EX-EMBAIXADOR EM WASHINGTON (1999-2004)

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