O consenso possível

A cúpula do G-20 mostrou que o multilateralismo é o melhor caminho

O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2018 | 03h00

Havia grande apreensão de que a cúpula do G-20, reunião dos chefes de Estado e de governo das 20 maiores economias do mundo, realizada em Buenos Aires no fim de semana passado, fosse um fiasco. Não era um temor infundado, especialmente tendo-se em vista a recente escalada de hostilidades comerciais entre Estados Unidos e China. Mas não só por isso. A própria ideia de multilateralismo, segundo a qual problemas e oportunidades globais requerem ações igualmente globais, tem sido repelida por nações onde grassa uma onda nacionalista, incluindo a mais poderosa de todas.

No entanto, o comunicado final da cúpula reverteu as expectativas mais negativas. O que se pode extrair do documento é que a importância do sistema multilateral não deve ser menosprezada. Prova maior disso foi a defesa de um conjunto de reformas na Organização Mundial do Comércio (OMC). Não se busca empreender esforços para revitalizar algo que não tem mais importância. 

“Nós assim apoiamos uma necessária reforma da OMC para melhorar seu funcionamento”, diz o comunicado. É verdade que o texto não deixa claro que reformas seriam estas, mas indiscutivelmente se trata de um bom sinal.

“Foi o consenso possível”, disse o ministro da Fazenda da Argentina, Nicolás Dujovne. Para o secretário de Relações Internacionais do Ministério da Fazenda do Brasil, Marcello Estevão, “o comunicado é uma vitória do multilateralismo”. “Se vai ser bom ou ruim para o Brasil, vai depender do que acontecer nessa revisão das regras da OMC”, disse.

Na sequência da cúpula, os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, anunciaram uma “trégua tarifária” de 90 dias, a valer a partir de 1.º de janeiro de 2019. Foi o primeiro encontro entre os dois desde que a guerra comercial entre os dois países foi deflagrada, há cerca de três meses. Pelo acordo, nem os EUA nem a China imporão novas tarifas adicionais sobre os produtos dos dois países e vão continuar as rodadas de negociação a partir do ano que vem. 

Trata-se de uma evidente distensão nas relações comerciais entre as duas mais fortes economias do mundo. Para o Brasil, no entanto, a trégua comercial entre americanos e chineses poderá implicar alguma perda nas exportações, sobretudo de soja, produto em que o Brasil concorre com os EUA.

A questão deve ser vista com particular atenção pelo futuro governo brasileiro. A simples menção a um eventual alinhamento automático do Brasil com os interesses dos EUA já provocou uma reação enfática do governo chinês, alertando para possíveis retaliações.

Outro importante consenso obtido na cúpula do G-20 foi a defesa irrestrita do Acordo de Paris, que prevê uma série de ações para conter mudanças climáticas. O texto reafirma o compromisso dos países subscritores com a “implementação completa e irreversível” dos termos do acordo firmado em 2015 pelas 195 nações que compõem a ONU – o Brasil o assinou oficialmente no dia 22 de abril de 2016. “Vamos lidar com a mudança climática enquanto promovemos o desenvolvimento sustentável”, diz trecho do comunicado.

O presidente eleito Jair Bolsonaro já indicou que retiraria o Brasil do Acordo de Paris, tal como fez Donald Trump em junho de 2017, por não ver no acordo “condições justas”, e, em sua visão, uma vez implementado, custaria “milhares de empregos americanos”.

São duas importantíssimas questões que estarão sobre a mesa de Bolsonaro a partir do mês que vem, quando tomará posse. Tanto a questão comercial como o posicionamento em relação ao acordo do clima, à luz do que se viu na cúpula do G-20, vão exigir do presidente, no mínimo, uma abordagem mais cautelosa do que suas recentes declarações, e de colaboradores mais próximos, deram a entender. Disso dependerá o grau de relevância que o País terá na discussão dos grandes temas globais.

Ao final, a cúpula do G-20 mostrou que o multilateralismo é o caminho para o crescimento global e a estabilidade, ainda que demande revisões de suas organizações. 

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