O consumidor e a insegurança

Os consumidores se mostraram em maio mais animados que um ano antes, mas ainda muito cautelosos, com orçamentos bem apertados e pouca ou nenhuma disposição de assumir novas dívidas

O Estado de S.Paulo

13 Julho 2017 | 03h03

Os consumidores se mostraram em maio mais animados que um ano antes, mas ainda muito cautelosos, com orçamentos bem apertados e pouca ou nenhuma disposição de assumir novas dívidas. Seus humores pioraram em junho, de acordo com as sondagens divulgadas até agora. A principal explicação dos pesquisadores tem sido o aumento da incerteza política a partir das denúncias contra o presidente Michel Temer, divulgadas na segunda quinzena de maio. Nesse mês, no entanto, a nova crise pouco ou nada afetou as vendas do comércio. Até aí, o consumo parou de piorar, estabilizou-se e mais uma vez superou em volume o resultado de um ano antes, segundo o novo relatório mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As vendas no varejo restrito foram 0,1% menores que as de abril e 2,4% superiores às de maio de 2016, puxadas pelo bom desempenho dos supermercados. As do comércio ampliado – com inclusão de veículos, suas peças e materiais de construção – diminuíram 0,7% em maio, mas ultrapassaram por 4,5% as de igual período do ano anterior.

O mês de maio deste ano teve um dia útil a mais que o de 2016 e isso afetou a comparação anual. Além disso, as vendas no ano passado foram muito ruins, porque o País ainda estava no fundo da recessão iniciada em 2014. Depois disso o desemprego continuou a aumentar e na passagem para 2017 mais de 14 milhões de pessoas estavam desocupadas. O desemprego cedeu ligeiramente, mas ainda supera 13% da força de trabalho e afeta mais de 13 milhões de indivíduos.

Freado pela desocupação, o consumo elevou-se lentamente neste ano, até mais devagar que a atividade industrial. Mas essa recuperação, embora vagarosa, é um dos sinais positivos acumulados desde o primeiro trimestre. Os mais notáveis têm sido os do agronegócio, favorecido por uma safra recorde de grãos e oleaginosas e pela recuperação dos preços de alguns produtos. A indústria, embora operando em níveis muito baixos, também tem reagido. Em maio, a produção industrial cresceu em 10 das 14 áreas pesquisadas pelo IBGE. O volume total foi 0,8% maior que o de abril e 4% superior ao de um ano antes. No ano, ficou 0,5% acima do nível de janeiro a maio de 2016.

Será preciso vencer um longo percurso para retomar os níveis observados 12 meses antes, tanto no caso da indústria como no do comércio varejista. Nesse período a produção industrial diminuiu 2,4% e as vendas do varejo ampliado, 5,2%. Mas há claros sinais de reativação e um dos indícios mais animadores tem sido a oferta de empregos industriais. Esses empregos ainda são, de modo geral, os melhores do mercado, pela combinação de salários, formalização e benefícios adicionais, como assistência à saúde. Alguns segmentos, como o automobilístico, o têxtil e o de calçados, têm recorrido com algum sucesso ao comércio exterior para melhorar seu desempenho.

Retomar o nível de atividade perdido em 12 meses será, no entanto, apenas uma primeira e difícil etapa da recuperação. Depois disso ainda será preciso recobrar os padrões de 2013 e, em seguida, retomar o caminho perdido do crescimento. O rumo ascendente dependerá de grandes investimentos para fortalecer a capacidade produtiva. Será indispensável um esforço simultâneo de aplicação de capitais em obras de infraestrutura, com liderança do setor público, e de ampliação e modernização do estoque de máquinas, equipamentos e instalações empresariais.

Empresários e consumidores mostraram maior insegurança em junho, com o aumento da incerteza política. Uma pesquisa da Associação Comercial de São Paulo apontou uma aparente exceção – um pouco mais de otimismo dos consumidores paulistas com relação à economia local. Mas o risco de perdas predomina. A maior insegurança quanto ao recuo continuado da inflação, à agenda de reformas e às condições de emprego pode prejudicar seriamente a recuperação. Decisões desastradas em Brasília podem custar muito ao resto do País – o mundo real da produção e do desenvolvimento.

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