O cordão dos chantagistas

As notórias dificuldades da presidente Dilma Rousseff com o que se supunha que fosse a base parlamentar do governo acabam de subir uma oitava com a decisão dos líderes partidários nominalmente alinhados com o Planalto de criar um "blocão" de oito legendas. Conduzido pelo PMDB e nele incluído o oposicionista Solidariedade, o cordão dos chantagistas - e é disso que se trata - poderá reunir mais de 250 deputados, quase a metade da Casa de 513 membros.

O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2014 | 02h13

É um contingente respeitável - se é que cabe o adjetivo, tendo em vista o enredo e os protagonistas - para fazer a presidente levar a sério os malignos planos de vingança dos seus irados criadores. Eles bufam porque a presidente não os trata com o respeito e a consideração de que se acham merecedores, o que se traduziria sobretudo em agraciá-los com os cargos e as verbas a que entendem ter direito natural - e abarcando, nestes tempos de reforma pré-eleitoral do Gabinete, mais e melhores vagas na Esplanada dos Ministérios.

A se firmar, o bloco dos frustrados poderá alardear força suficiente para romper o bloqueio imposto pelo governo à apreciação, na Câmara, de propostas perdulárias que, por isso mesmo, têm a vantagem de agradar às mais diversas clientelas do Congresso, até no setor público. Mesmo quando não são de sua própria lavra, mas em má hora confeccionadas no Executivo, os políticos cuidam pavlovianamente de piorá-las. É o caso do projeto que muda do IGP-DI para a taxa Selic o indexador das dívidas de Estados e municípios com a União.

A iniciativa foi uma manobra descarada para facilitar a vida do prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad, que alega ter pouco dinheiro para fazer da cidade a Xangai do lado de cá do mundo, como apregoa, napoleonicamente. Com as contas federais cada vez mais turvas, a ameaça de rebaixamento do Brasil no ranking das agências internacionais de avaliação de crédito e a maré montante de descontentamento do empresariado, Dilma caiu em si e mandou segurar a tramitação da descabida bondade.

Mas a tigrada, para a qual tanto faz como tanto fez o novo programa fiscal com que o governo pretende desinchar a face que assusta os investidores quando a veem no retrato do Brasil, foi além da barbeiragem inicial. Enfiou no texto a aplicação retroativa do novo indexador. Já não bastasse o projeto planaltino transgredir a Lei de Responsabilidade Fiscal, a esbórnia estaria à altura de desfilar no sambódromo. O governo fez saber que, diante do risco, retirará de vez a proposta - o que devia fazer de todo modo.

Já diante da falange da gastança, o Planalto gastou as suas reservas de panos quentes para acalmar os zangados. Anunciou o envio de uma força-tarefa de 12 ministros - naturalmente, das pastas mais bem dotadas em matéria de recursos para custear emendas parlamentares. Eles darão plantão no gabinete da liderança do governo na Câmara, revezando-se diante de um confessionário sui generis. Os desgarrados do dilmismo aparecerão não para confessar pecados, mas para cobrar benesses da autoridade, na expectativa de voltar para os seus redutos muito melhor do que perdoados: premiados.

Numa reunião com o pessoal de cenho franzido, os ministros da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, e o líder governista Arlindo Chinaglia, aspergiram outra dose de boa vontade ao dar aos interlocutores a oportunidade de apresentar uma lista de projetos prioritários a serem votados neste semestre - o único período legislativo útil do ano. Mas haverá prioridades e prioridades: as que não aumentem as despesas do governo serão privilegiadas. "Não podemos esquecer que todos os partidos assinaram o pacto de responsabilidade fiscal", lembrou Ideli. A ver.

Resta a ganância do PMDB e de outros menos votados pelos Ministérios a vagar - sempre aquém das suas ambições. Com a agravante da resistência da presidente a levar à Esplanada candidatos de quem não gosta - mesmo em nome da reeleição. Quem sabe na conversa marcada para amanhã, Lula lhe mostre o caminho das pedras.

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