O crescimento da indústria

Com a contínua alta da produção e das vendas nos últimos meses, a atividade industrial no País já atingiu um nível muito próximo daquele registrado no início do segundo semestre de 2008, poucos meses antes da eclosão da crise financeira internacional, quando o clima dominante na economia brasileira ainda era de euforia. O risco, agora, é o de a euforia retornar com vigor redobrado, o que poderá exigir, mais tarde, alguma medida corretiva.

, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2010 | 00h00

"O mercado interno retomou o vigor de antes da crise", comemorou o economista-chefe da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, ao comentar os indicadores industriais relativos a fevereiro divulgados pela entidade. A recuperação da indústria em âmbito nacional está sendo puxada por São Paulo, onde a atividade econômica é impulsionada pelo mercado doméstico, confirmou o economista da coordenação da área industrial do IBGE, André Machado, ao explicar o desempenho da indústria em fevereiro. O recorde de vendas de veículos novos no mercado interno em março, antecipado pelos revendedores e reiterado pelos fabricantes, reafirma a pujança da demanda.

Há uma defasagem dos dados do IBGE e da CNI, referentes a fevereiro, em relação aos da Anfavea, de março. Mas todos deixam claro que a recuperação é forte, persistente e se estende por praticamente todos os setores, com alguns, como o automotivo, registrando desempenho excepcional.

De acordo com o IBGE, no resultado acumulado do primeiro bimestre, a produção industrial de 2010 foi 17,2% maior do que a de 2009. Nos dois primeiros meses do ano passado, a atividade econômica do País sentia os efeitos mais intensos da crise internacional. Em 2010, como deixam claro os dados do IBGE, o crescimento é generalizado, tanto pelas 14 regiões pesquisadas como pelos setores industriais.

Com base em outras informações, a pesquisa da CNI também mostra que a recuperação continua intensa. Os resultados de fevereiro referentes a vendas, horas trabalhadas e emprego são melhores do que os de janeiro, o que reforça a tendência de crescimento observada há alguns meses. Na comparação com o primeiro bimestre de 2009, o crescimento das vendas reais no primeiro bimestre deste ano é notável: de 10,1%. A massa salarial real cresceu 2,4% no acumulado dos dois primeiros meses de 2010, na comparação com igual período de 2009.

A oferta de crédito para a aquisição de bens duráveis e a melhora da renda da população explicam a persistência da forte demanda interna. A redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incidente sobre veículos e eletrodomésticos também estimulou o consumo. Mas nem mesmo o fim da redução do IPI sobre automóveis parece incomodar a indústria. A manutenção da produção de veículos em nível muito alto em março e a projeção da Anfavea de um aumento de 8% na produção deste ano demonstram que pelo menos esse setor industrial aposta na demanda interna aquecida também nos próximos meses.

A manutenção por muitos meses da atividade industrial no nível observado no início de 2010 fortalecerá o argumento do Comitê de Política Monetária (Copom) para a elevação do juro básico da economia em suas próximas reuniões. Um dos dados que mais têm preocupado o Copom é o nível de utilização da capacidade instalada da indústria. Quanto mais alto o nível, maior é o risco de, por esgotamento da capacidade, a indústria elevar seus preços.

O economista Flávio Castelo Branco, da CNI, não vê com preocupação esse risco. Ele argumenta que o nível de utilização da capacidade instalada da indústria em fevereiro foi igual ao de janeiro. Como a atividade industrial se intensificou de um mês para outro sem pressionar o uso da capacidade instalada, os investimentos feitos anteriormente em expansão começam a dar resultados práticos, raciocina. Os investimentos continuam sendo feitos, razão pela qual, na sua opinião, a indústria não gerará pressões inflacionárias nos próximos meses.

Resta saber se esse argumento convencerá o Copom.

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