O crescimento rápido da renda cria desequilíbrios

Os bancos internacionais preocupam-se com a volta da inflação nos países emergentes e, no caso do Brasil, isso já é perceptível. Justifica-se, pois, avaliar as razões dessa evolução. Do nosso ponto de vista, pode-se resumir numa frase a causa fundamental: estamos num período de elevação anormalmente rápida da renda da população.

, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2010 | 00h00

O funcionamento equilibrado da economia exige que a evolução da demanda se mantenha num ritmo compatível com o de outros fatores, principalmente o da produção industrial doméstica. A crise internacional deu origem a algo totalmente atípico em nossa economia: o governo, para enfrentá-la, optou por incentivar o consumo e, o Congresso, por suas decisões, foi além do Executivo e se mantém na mesma atitude. Isso aconteceu num momento de incerteza, em que a indústria brasileira entrou na crise com grandes estoques, enquanto a demanda externa para produtos manufaturados estagnava.

Verifica-se que o poder de compra da população chegou ao maior nível dos últimos 14 anos. E vários fatores contribuíram para isso. O salário mínimo, desde 2008, aumentou muito acima da inflação, com todas as consequências que esse reajuste tem sobre a aposentadoria e o programa Bolsa-Família, numa economia altamente indexada ainda.

Esse aumento de renda veio numa fase em que os preços baixavam, como mostra a evolução do custo da cesta básica em termos reais; a oferta de alimentos crescia - a indústria procurava escoar estoques com uma política de manutenção de preços -; e a taxa cambial valorizada favorecia que a indústria aumentasse suas importações de componentes e permitia a importação de bens de consumo duráveis a um preço convidativo para os consumidores.

Nesse ambiente, verificou-se ainda um aumento da oferta de crédito com taxa de juros menor do que antes da crise, gerando uma liquidez que se ampliou ainda mais com os gastos do governo federal. Ao mesmo tempo, surgiu a pressa de aumentar os investimentos - que representam elevação de gastos, antes de se traduzirem em aumento da capacidade de produção. Iniciou-se, também, paralelamente, um programa habitacional que tem como característica empregar numerosa mão de obra não qualificada.

Toda essa política se propagou em ritmo muito rápido, que a indústria não acompanhou. Não devemos, pois, estranhar a elevação dos preços, mas, certamente, caberia ao Congresso não escolher esse momento para aumentar o poder aquisitivo.

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