O cuidado da criação

A solução da questão ambiental precisa levar em conta os princípios gerais do bem comum

*Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2016 | 03h13

No dia 1.º de setembro, enquanto as atenções estavam voltadas para a conclusão do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, realizava-se pela segunda vez o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, a convite do papa Francisco. A iniciativa envolveu a Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja Ortodoxa Grega e outras igrejas e comunidades cristãs, contando com o apoio do Conselho Mundial de Igrejas.

Com o conceito de criação a linguagem cristã se refere a todos os seres deste mundo, cuja origem última é atribuída a Deus. Não vem ao caso, aqui, pôr em discussão o fenômeno da evolução das espécies, que é científico e aceito pela doutrina católica, preservado que na origem e dinâmica da existência das criaturas se reconhece a ação criadora de Deus.

Na sua mensagem para a ocasião, Francisco manifestou o desejo de que cada fiel e cada comunidade cristã assuma a sua missão de “guardiã da criação”. Convidou a louvar e agradecer a Deus pela obra maravilhosa que Ele confiou aos nossos cuidados e, ao mesmo tempo, a pedir perdão “pelos pecados cometidos contra o mundo em que vivemos”.

A iniciativa tem sua inspiração sobretudo na encíclica Laudato Si’, sobre “o cuidado da casa comum”, do papa Francisco (2015), o qual adverte que a sustentabilidade do planeta Terra, com todo o seu ambiente de vida, está sendo posta em risco pela exploração irresponsável do homem. “Deus deu-nos de presente um exuberante jardim, mas nós estamos a transformá-lo numa imensidão devastada, cheia de ruínas, desertos e lixo”, pondera o papa. E convida: não se deve ficar indiferente diante da ameaça de destruição da biodiversidade e dos ecossistemas, desencadeada em boa parte por comportamentos humanos irresponsáveis e egoístas. Em questão está a “casa comum” de todos os seres humanos e das espécies que encontram abrigo e espaço para a sua existência nesta casa comum.

Nosso planeta continua a aquecer e a perder a sua capacidade de hospedar, nutrir e proteger a vida; e as mudanças climáticas vão mostrando sempre mais as suas consequências danosas. A pergunta vem espontânea: que podemos fazer para mudar este quadro?

Os governantes dos povos, certamente, têm o grave dever de trabalhar para que se estabeleçam regras comuns e de zelar para que sejam observadas, com o objetivo de frear o aquecimento global. Mas os cidadãos de todos os países também precisam fazer a sua parte. O resultado positivo não depende apenas de ações governamentais de grande vulto e impacto. Muitas pequenas iniciativas e atitudes, acessíveis a todos os cidadãos, fazem a diferença.

A união de esforços é indispensável; muitas vezes será necessário mudar hábitos e rever práticas culturais e atividades econômicas que estejam produzindo dano ao ambiente. Todos podem zelar pelo bom uso da água, para evitar o desperdício de alimentos, pela diminuição do lixo e a melhor destinação dele, para frear os excessos do consumismo, que pressiona fortemente sobre a disponibilidade dos recursos naturais; podemos, certamente, viver de maneira mais sóbria, diminuindo o consumo desenfreado de bens supérfluos. Todos podem cuidar da limpeza de sua rua, da preservação da qualidade do ar.

A relação pouco conscienciosa com o ambiente e a sua deterioração trazem danos a nós mesmos. Mas são os pobres do mundo que acabam pagando um preço mais alto. A escassez ou falta de recursos força imensas multidões a migrar e lhes torna a vida ainda mais difícil; a lamentável situação dos refugiados é provocada, em boa parte, pelas questões ambientais e climáticas. “Os pobres do mundo, embora sejam os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, são os mais vulneráveis e já sofrem os seus efeitos”, adverte o papa Francisco.

Por isso se faz necessário trabalhar para uma ecologia integral, em que o ser humano seja respeitado e possa conviver harmonicamente com todos os seres, levando em conta que cada criatura tem seu valor próprio. Cuidar apenas da natureza sem cuidar do homem, ou transformá-lo em inimigo da natureza, não teria sentido. Por isso o cuidado do ambiente também envolve a questão da justiça social e a superação da miséria e da pobreza. E sempre convém ter presente esta questão: que mundo queremos deixar para as crianças os aos jovens e para as futuras gerações? A solução da questão ambiental precisa levar em conta os princípios gerais do bem comum.

Talvez haja quem pergunte: que valor há em elevar as mãos para o céu e em rezar pelo cuidado da criação? Que efeitos práticos tem? A resposta é que o efeito prático nem sempre é conseguido imediatamente, mas por meio de uma mudança da consciência e das motivações que levam o homem a agir. As preces elevadas a Deus expressam o reconhecimento de que o homem não é senhor absoluto da criação e, como consequência, não a pode usar de maneira arbitrária, menos ainda expô-la ao aniquilamento. Junto com a prece se forma o respeito pela casa comum, na qual todos são dependentes de todos, e a consciência solidária. Conforme já ensinou o papa Bento XVI na encíclica Caritas in Veritate, na questão ambiental está implicada a questão moral, pois as ações do homem em relação à natureza têm consequências para a própria natureza e também para as outras pessoas.

Quando o papa Francisco convida a rezar pelo cuidado da criação, está propondo algo que faz muito sentido: está a chamar para uma nova tomada de consciência e uma nova postura ética diante da questão ambiental. E isso pode levar a grandes decisões; mas pode levar, sobretudo, à prática daquela imensidade de pequenas ações que potencializam um novo cuidado da criação no espaço do cotidiano, capazes de produzir efeitos benéficos de grande significado no trato da casa comum.

 

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