O curral eleitoral e seu poder na eleição

Os mais jovens talvez nunca tenham ouvido a expressão "curral eleitoral". Nem "voto de cabresto". O que será isso?, perguntaria a menina de 15 anos ao avô.

Aloísio de Toledo César, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2014 | 02h05

Quando foi proclamada a República, a Constituição federal brasileira tardou em prever a figura do voto secreto e, com isso, as primeiras eleições no País se realizaram por um sistema que permitia identificar a pessoa em quem o eleitor votava. Realmente, naqueles tempos nada saudosos, o eleitor levava consigo um pedaço de papel com o nome de seu candidato e o depositava na urna, permitindo que os coronéis da época entregassem a cada um de seus empregados uma cédula já preenchida.

E lá seguia o eleitor de cabresto para cumprir o dever de votar naquele político de quem era dependente.

Graças a esse sistema nada democrático, ganharam força as expressões "voto de cabresto" e "curral eleitoral", porque, sobretudo no Nordeste, os políticos mais poderosos adotavam essa conduta para garantir os seus votos. Sim, a grande maioria dos eleitores, por dependerem economicamente desses "coronéis", recebia pelo voto um pagamento de diversas formas - comida, roupas, casa para morar e até mesmo dinheiro.

Curiosamente, esse costume se arraigou de tal forma em nosso sistema de escolha dos governantes que hoje temos talvez o maior curral eleitoral de todos os tempos. Há uma diferença: na sua fase inicial, os eleitores "de cabresto" recebiam o pagamento do próprio político ao qual estavam submetidos, mas hoje, no enorme curral eleitoral do presente, quem paga a esses eleitores somos nós.

Nisso talvez resida a conhecida esperteza do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - como sempre, uma esperteza para o mal. Tendo Lula percebido que é bom em cada eleição poder contar com um curral eleitoral obediente e confiável, ele carreou esforços (e o nosso dinheiro) para pagar a esses eleitores na forma disfarçada de Bolsa Família e outras benesses governamentais.

Por incrível que pareça, essas pessoas, que não recebem a necessária instrução e por isso mesmo são mais fáceis de se deixar conduzir, se tornaram dependentes economicamente do atual governo e representam a grande força da candidata oficial, Dilma Rousseff. Não será exagero admitir que tais eleitores poderão decidir a eleição deste domingo, pois representam uma massa de votos que os pesquisadores calculam em até 40 milhões.

As pesquisas têm demonstrado que nas áreas de pessoas de melhor instrução (a educação liberta), a candidata oficial não detém tão grande apoio. Mas quando envolve dependentes do Bolsa Família, a adesão à sua candidatura é quase unânime.

Isso equivale a dizer que o nosso dinheiro, aquele que é coletado dos impostos pagos por cada um de nós, está servindo para beneficiar o projeto político de um grupo que chegou ao poder, gostou disso ao extremo e não quer mais sair (até porque, se sair, sabe que os riscos de uma devassa serão incalculáveis).

Esses eleitores de cabresto estão comprando geladeiras, televisões, comendo melhor, e isso, sem nenhuma dúvida, é melhor do que viver na faixa da pobreza extrema. Mas como recebem de graça, sem que tenham realizado nenhum trabalho que mereça a devida retribuição, torna-se elementar o paternalismo, inimigo antagônico do livre desenvolvimento.

Sem dúvida alguma, os programas sociais das Bolsas Família e outros deveriam ter sido complementados por outras providências que proporcionassem efetivo desenvolvimento educacional e econômico e, enfim, libertassem os assistidos, ao invés de deixá-los numa dependência que é contrária ao interesse do País. Carentes de instrução e sem alcançar a liberdade que o saber proporciona, permanecem socialmente anestesiados e sempre esperando o dia de receber os valores do governo federal.

Para essas pessoas, fatos de extrema relevância como o mensalão e a farra com o nosso dinheiro na Petrobrás, por exemplo, nem sempre têm relevância, nem são objeto de preocupação. O que as preocupa mesmo é o dia de receber o dinheirinho do patrão governo, porque, afinal, é necessário pagar a prestação da geladeira, da televisão e mesmo do primeiro automóvel. Dois anos atrás houve o rumor de que não seria feito tal pagamento e isso provocou uma enorme correria aos bancos, somente acalmada com a abertura dos caixas para que cada um o recebesse.

É muito triste observar que essas pessoas votam muito mais com o estômago do que com a cabeça. Superar tal poder eleitoral é tarefa muito difícil para os candidatos da oposição, pelo círculo vicioso suicida: se condenam e denunciam a sistemática eleitoreira do tipo Bolsa Família, isso significa renunciar a esses milhões de votos; por outro lado, se aceitam e dizem que vão manter esse programa assistencial, no caso de eleitos, acabam convalidando a prática que fortalece a candidata oficial.

Criou-se no País, portanto, por força dessa conduta condenável, uma forma de realizar eleições que premia exatamente a pessoa que deveria ser punida por usar dinheiro público em seu próprio favor. É possível que tal sistema, contrário ao próprio País, só venha a ser repelido a partir do momento em que o aprimoramento educacional e o desenvolvimento econômico libertarem esses milhões de brasileiros da dependência quase escrava de um governo contrário aos princípios morais e de respeito à verdadeira democracia.

Mas como não são feitos na área da educação tais esforços e investimentos, criou-se a impressão de haver o propósito de deixar tudo como está porque, afinal, esses eleitores são fáceis de manobrar. Enfim, parecemos estar condenados a viver num país que vai a cada dia encolhendo, ao invés de crescer.

*Aloísio de Toledo César é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: aloisio.parana@gmail.com 

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