O currículo do ensino médio

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo alterou duas vezes, no período de apenas três dias, o currículo da rede estadual de ensino médio para o próximo ano, mudando as cargas horárias de disciplinas obrigatórias e eletivas.

O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2011 | 03h05

Há uma semana, o Diário Oficial do Estado anunciou a redução de 17% no número de aulas de matemática e de 8% na carga horária de português para os alunos do curso noturno. Segundo a Secretaria Estadual da Educação, a medida foi tomada para permitir a ampliação do número de aulas de disciplinas eletivas, como sociologia, filosofia e artes, e a inserção de matérias que hoje não integram a grade, como espanhol. Para os alunos do curso diurno, foi anunciada a redução da carga horária de geografia e história.

Para as autoridades educacionais, essas alterações permitiriam à rede de ensino médio oferecer em 2012 um currículo mais diversificado e mais adequado às necessidades do mercado de trabalho. Os especialistas reconheceram que as medidas poderiam estimular os alunos a estudar mais, ajudando a reduzir a taxa de evasão escolar, que é alta nesse ciclo. Mas também lembraram que o novo currículo reduziria a carga horária justamente das matérias em que os alunos enfrentam maior dificuldade de aprendizagem. Segundo o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), 57% dos estudantes de ensino médio não conhecem as noções básicas de matemática e 38% não conseguem absorver os conteúdos mínimos de português. Na última versão do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que é um levantamento comparativo envolvendo 65 países, os estudantes brasileiros ficaram em 53.º lugar no exame de leitura; em 57.º, no teste de matemática; e em 53.º, na prova de ciências.

Três dias depois da divulgação do novo currículo, o governador Geraldo Alckmin obrigou a Secretaria Estadual da Educação a voltar atrás nas mudanças anunciadas para os alunos do curso noturno. Com isso, os cortes na carga horária de português e matemática foram suspensos. As alterações que haviam sido anunciadas para os alunos do curso diurno foram mantidas.

Nos últimos três meses, o governador deu várias declarações sobre as mudanças que a Secretaria Estadual da Educação pretendia promover no currículo do ensino médio. Quando a minuta do novo currículo foi enviada às escolas da rede pública para ser debatida, em setembro, o governador sugeriu que o número de aulas de sociologia, filosofia e artes não fosse aumentado à custa da redução da carga horária de português e matemática. "Já que vai haver debate, quero dar a minha contribuição, dizendo que, se pudéssemos, deveríamos aumentar as aulas de português e matemática", disse ele.

Segundo a Secretaria Estadual da Educação, o currículo divulgado pelo Diário Oficial do Estado resultou de um debate que durou quase três meses e contou com a participação de mais de 20 mil representantes da rede de ensino médio. Mesmo assim, a decisão tomada por Alckmin, acolhendo as recomendações dos especialistas, é muito mais sensata do que a alternativa que havia sido negociada pelas autoridades educacionais com o professorado.

Português e matemática são disciplinas decisivas para a emancipação social, intelectual e profissional das novas gerações. Sem saber ler e escrever textos com um mínimo de complexidade e sem conhecer álgebra e geometria, os jovens não têm como encontrar ocupação na economia formal, pois não saberão lidar com as novas técnicas de produção e comunicação propiciadas pelo desenvolvimento tecnológico. Também não terão condições de progredir no sistema educacional, evoluindo para o ensino superior, ajudando com isso a romper o círculo vicioso do analfabetismo, da desigualdade e da pobreza.

Sem um ensino fundamental e médio capaz de assegurar uma boa formação em matemática e português aos alunos, não há política pedagógica que ajude a nivelar oportunidades. O governador mostrou ter consciência disso, quando impediu a redução da carga horária dessas duas disciplinas.

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