O custo Brasil

Os empresários muito se queixam da sobrevalorização do real e da volatilidade das cotações do dólar, fatores que dificilmente irão mudar. Mais importante para dar mais competitividade aos produtos nacionais é o custo Brasil, reconhecidamente elevado, mas cujo cálculo, excluindo o câmbio, não era até agora feito com exatidão.

, O Estadao de S.Paulo

14 Março 2010 | 00h00

Essa falha foi sanada pelo estudo realizado pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). O trabalho revela que o custo Brasil é, em média, 36,27% para a indústria, de modo geral, e de 43,85% para o setor de máquinas, em particular, se comparados com os custos dos EUA e da Alemanha.

Esse estado de coisas inibe investimentos nacionais e internacionais na indústria. O Brasil se distancia cada vez mais dos tempos em que podia aspirar a ser uma plataforma de exportação de produtos manufaturados, que serviu de base para a criação das chamadas Zonas de Processamento de Exportações, sobre as quais não mais se fala.

"Imagine que um alemão apaixonado pelo clima tropical resolvesse trazer sua fábrica de porteira fechada para o Brasil, incluindo mão de obra e máquinas. O preço do mesmo produto que fabrica na Alemanha subiria automaticamente 36,27%", como disse ao Estado o empresário Mário Bernardini, que coordenou o estudo da Abimaq.

Note-se que a comparação foi feita com dois grandes países desenvolvidos, que não oferecem mão de obra barata e que têm leis de amparo aos trabalhadores e extensas redes de proteção social. Em confronto com a China, onde os salários são baixíssimos e cuja legislação social é ainda incipiente, o custo Brasil dobra, sem levar em conta a desvalorização acentuada do yuan.

O item de maior peso no custo Brasil é o de insumos básicos (18,57% para a indústria em geral e 24,01% para o setor de máquinas), não sendo especificado se se trata de bens produzidos internamente ou são importados. Isso ajuda a explicar o crescimento da importação de matérias-primas, exigindo, no caso de alguns produtos, como o aço, que os produtores nacionais busquem maiores ganhos de produtividade.

O que é fundamental no custo Brasil, tanto para os produtores de bens finais como de insumos, é o segundo item de maior peso no estudo da Abimaq: os juros sobre capital de giro (média de 7,95% na indústria como um todo e de 9,41% no setor de máquinas). O governo está prometendo "para breve" um pacote de estímulo à exportação, destinado a baixar os custos financeiros por meio de empréstimos a serem concedidos por um órgão como o Eximbank.

Outros incentivos poderão ser concedidos, mas nada se prevê para baixar os custos de encargos sociais e trabalhistas (peso de 2,84% para a indústria em geral e de 3,99% para o setor de máquinas). Para todas as áreas industriais, os impostos não recuperáveis na cadeia produtiva custam 2,98% e a logística, 1,9%.

De qualquer forma, o governo tem de agir com rapidez. A exportação tem reagido neste início de ano, tendo crescido 27,2% em valor, na média diária de fevereiro, em comparação com o mesmo mês de 2009. Mas se deve ter em conta que a base de comparação é baixa, tendo sido 2009 um ano mau para as vendas externas. As importações dispararam (mais 50,8% na média diária em fevereiro, em relação ao ano anterior), mas a expectativa otimista é de que a balança comercial deixe um saldo de US$ 12 bilhões. Isso é essencial para conter o déficit em transações correntes, cuja projeção oficial é de US$ 40 bilhões.

Com câmbio sobrevalorizado e seu alto custo-país, o Brasil corre o risco de uma progressiva desindustrialização, transformando indústrias em importadoras, especialmente de produtos chineses, como já está acontecendo com empresas de regiões diversas.

As graves deficiências de infraestrutura prejudicam os produtores brasileiros de commodities. De cada dez sacas de soja produzidas em Mato Grosso, por exemplo, quase cinco são consumidas com o frete. E, em cada viagem até o Porto de Santos, 100 kg de soja são perdidos em estradas degradadas, como mostrou reportagem do Estado (7/3). O custo Brasil faz hoje o papel da saúva que no passado ameaçava acabar com o País.

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