O custo da vitória

Há dois meses, o caudilho Hugo Chávez colocou em funcionamento o rolo compressor do governo e, no domingo, obteve o resultado pelo qual tanto ansiava: criou a possibilidade de se tornar ditador vitalício de seu país, utilizando-se de um dos principais instrumentos da democracia - as eleições. O resultado do referendo sobre a emenda constitucional da reeleição indefinida foi duplamente indiscutível. Em primeiro lugar, Chávez saiu vitorioso de uma disputa que era vital para o seu projeto político. Em segundo lugar, consolidou a divisão da nação, pois, se é verdade que 54% dos eleitores aprovaram o esbulho democrático, não é menos verdade que 46% dos cidadãos repudiaram o retrocesso institucional do país a condição só igualada durante o ciclo de ditaduras terminado em 1954.Agora, mais que nunca, a "revolução bolivariana" é Chávez. Desde muito tempo antes de reunir os partidos e movimentos que o apoiavam no Partido Unido Socialista da Venezuela, ele vem repetindo que a revolução é ele, o governo é ele. Ao seu redor, pululam áulicos, que premia ou dispensa em desgraça segundo assomos de sua vontade. Por onde passa não vicejam líderes nem projetos de liderança que possam se constituir em alternativas ao Jefe Supremo. Não foi à toa que, depois de votar, no domingo, declarou que, nas urnas, estava se decidindo "meu destino político" - o dele, não o da Venezuela.Disse mais. Segundo ele, com o referendo, a Venezuela está "assumindo a vanguarda da América Latina", ao criar "uma nova doutrina constitucional". Trocando em miúdos, ele pretende redobrar esforços para exportar a "revolução bolivariana", já adotada na Bolívia, no Equador e na Nicarágua, para toda a região - uma forma de obter, de fora, o apoio que sabe que, mais cedo ou mais tarde, lhe faltará no plano interno.Hugo Chávez precisava desta vitória eleitoral também para sustentar o mito da invencibilidade, abalado pela derrota do referendo realizado há 14 meses, quando os venezuelanos rejeitaram a sua constituição liberticida, e pelas recentes eleições regionais, quando a oposição conquistou os governos dos Estados e cidades mais importantes do país. Fez tudo a toque de caixa. Entre lançar a ideia do referendo e ganhá-lo nas urnas passaram-se três meses. Precisava evitar que as condições críticas da economia venezuelana - resultado de dez anos de desgoverno e agravadas com a queda abrupta dos preços do petróleo, a maior riqueza nacional - se traduzissem em perda de popularidade capaz de comprometer seu projeto político.De fato, até um mês antes do referendo, todas as pesquisas de opinião indicavam que a reeleição indefinida seria rejeitada no referendo - como já havia acontecido em 2007. Hugo Chávez reverteu essa tendência, usando os meios à sua disposição.Fez, por exemplo, amplo uso dos recursos do Tesouro nacional, tanto distribuindo benesses para as populações mais necessitadas como financiando uma campanha publicitária sem precedentes. As emissoras oficiais de rádio e televisão - e restaram poucas fora da área de influência do governo - fizeram propaganda maciça do "sim", sem dar espaço para a oposição. Esta, com seus recursos financeiros exauridos pela campanha eleitoral de novembro, não teve como enfrentar a máquina de propaganda do governo. As manifestações populares convocadas pelo governo em apoio à reeleição indefinida contavam com abundantes recursos materiais e com a aprovação incondicional das autoridades. Já a oposição não obteve autorização para muitos de seus comícios e várias passeatas organizadas pelos estudantes foram dissolvidas violentamente pela polícia. Para completar o quadro de abuso, o governo pressionou, com ameaças e chantagens, os funcionários públicos e trabalhadores das empresas estatais, bem como os beneficiários das "missiones" - os programas de assistência social custeados pelo Estado.Tudo isso terá, evidentemente, um custo para Hugo Chávez. O referendo provou, mais uma vez, que sua permanência no poder se deve a uma combinação do uso da força e de medidas populistas. Sem o acesso ilimitado aos recursos financeiros do Estado, ele não é invencível nas urnas. A crise econômica e fiscal por que passa a Venezuela, com o crescimento da inflação e do desemprego, e o desaparecimento de produtos essenciais à população podem abreviar a aventura bolivariana.

, O Estadao de S.Paulo

17 de fevereiro de 2009 | 00h00

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