O custo de decisões equivocadas

Há séculos se debate o papel que grandes líderes têm em definir o curso da História

JOSÉ GOLDEMBERG*, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2018 | 03h00

Há séculos se debate o papel que grandes líderes têm em definir o curso da História. De modo geral, são as circunstâncias históricas que fazem surgir grandes figuras cuja ação consolida (ou destrói) as estruturas econômicas ou sociais existentes.

Napoleão é um bom exemplo. Brilhante oficial do exército, acabou consolidando os avanços da Revolução Francesa de 1789, que varreu a monarquia da França e de vários países da Europa e com sua mensagem de “igualdade, liberdade e fraternidade” estimulou movimentos republicanos no mundo todo, inclusive na América Latina, com Simón Bolívar.

Contudo o papel de Napoleão como defensor das ideias de revolução se desvaneceu quando ele se tornou imperador e instalou seus parentes como reis nos países da Europa que os exércitos franceses conquistaram. Para os especialistas, isto não foi uma grande surpresa. Ainda como tenente do exército Napoleão leu O Príncipe, de Maquiavel, e seus comentários nas margens do livro revelam bem os instintos e ambição exagerados que revelou como imperador.

O que esse exemplo mostra é que as forças da História abrem lugar para líderes, mas a competência e o caráter desses líderes tem papel fundamental nas consequências de suas ações. Churchill, o primeiro-ministro inglês que enfrentou quase sozinho a fúria avassaladora de Hitler, tinha credenciais muito discutíveis como aristocrata colonialista, mas acabou exercendo com enorme brilhantismo a liderança de seu país e das outras nações que acabaram levando à destruição do nazismo.

No plano interno tivemos líderes como Getúlio Vargas, que chegou ao poder em 1930 no bojo da Revolução Tenentista, que revelou mais tarde tendências autoritárias misturadas com nacionalismo. A criação da Petrobrás e da Eletrobrás foram algumas das boas ideias que implementou, porque refletiram a visão de que nos países em desenvolvimento o Estado tem papel essencial em tornar viáveis grandes investimentos em infraestrutura.

No caso da Eletrobrás isso foi feito com sucesso com o apoio de empréstimos do Banco Mundial, mas passada essa etapa deixou de ter sentido manter nas mãos do Estado empreendimentos que se tornam puramente comerciais ou cabides de empregos.

O caso da Petrobrás foi um pouco mais complicado. A fase positiva foi o desenvolvimento dos campos petrolíferos na plataforma continental, na Bacia de Campos, e no pré-sal, a grandes profundidades, que abriu uma nova fronteira tecnológica na exploração do petróleo e levou o País à autossuficiência na extração de petróleo bruto.

O refino do petróleo para produção de óleo diesel e gasolina não teve, porém, o mesmo sucesso. Após o ano 2000, contudo, o governo federal (e a própria Petrobrás) foi dominado por um novo surto nacionalista, baseado na ideia errônea de que o valor de uma empresa de petróleo é determinado pelas reservas que estão debaixo da terra, e não pelo petróleo que extrai e vende.

Esta era a visão nas empresas petrolíferas do mundo todo no passado, quando se acreditava que a era do petróleo duraria apenas algumas décadas, porque as reservas eram finitas. Era melhor, então, guardar o petróleo para o futuro, quando haveria falta dele e o preço aumentaria, pelo aumento da competição. Hoje a situação mudou: estamos agora numa era de abundância de petróleo, por três razões:

• A produção de petróleo nos EUA usando uma nova tecnologia (fracking). O país, que era um grande importador de petróleo, deixou de sê-lo.

• A exploração a grandes profundidades no oceano está sendo feita não só no Brasil, como em outros países do mundo.

• O consumo de petróleo está diminuindo porque os automóveis ficaram mais eficientes e, aos poucos, carros elétricos estão sendo introduzidos em alguns países.

É por isso que os preços do petróleo estão caindo e não se acredita que voltem ao patamar de US$ 100 por barril, ou mais. Ao contrário, muito provavelmente cairão para US$ 40 ou US$ 50 o barril.

Nada mais natural, portanto, do que acelerar a produção em associação com as empresas internacionais e aproveitar as próximas décadas para vendê-lo, antes que outros avanços tecnológicos reduzam ainda mais o consumo de petróleo. A política adotada pelo governo Dilma de não realizar, durante sete anos, licitações para exploração de petróleo no pré-sal foi um erro de proporções históricas, que só agora está sendo corrigido.

Junto com a política demagógica de manter baixos os preços dos derivados de petróleo, quando seu custo aumentou no exterior, causou mais prejuízos à Petrobrás do que toda a corrupção nessa empresa.

Esse é um caso claro de liderança incompetente que não entendeu as tendências mundiais e acabou por nos levar a ser um país que descobriu grandes reservas de petróleo no fundo do oceano e que correm o risco de lá ficar.

Há precedentes desse tipo no Brasil: após a 2.ª Guerra Mundial (1939-1945) energia nuclear passou a ser desenvolvida para fins pacíficos e uma das rotas tecnológicas para tal era o uso de tório, de que havia vastas reservas nas areias das praias do Espírito Santo (areias monazíticas). O governo federal da época caracterizou essas reservas como estratégicas e proibiu sua exportação. 

O lógico seria, então, iniciar um programa de sua utilização numa linha tecnológica de reatores nucleares usando tório, como foi proposto na ocasião pelo físico mineiro José Israel Vargas. Mas isso não foi feito e as reservas de tório continuam lá até hoje, nas praias do Espírito Santo. 

As oportunidades do uso de recursos minerais não duram para sempre e se não forem aproveitadas na ocasião adequada podem deixar de existir.

*EX-REITOR DA USP, FOI SECRETÁRIO DA SECRETARIA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

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