O custo do socorro

Com as medidas de socorro a instituições financeiras em dificuldades, de estímulo à atividade econômica e de proteção às camadas sociais mais vulneráveis que adotaram com presteza, os governos dos países industrializados e dos principais países em desenvolvimento evitaram que os efeitos da maior crise das últimas sete décadas fossem piores do que estão sendo. Tudo isso, porém, tem um custo fiscal que começa a ser calculado, mas cujas dimensões já parecem assustadoras.Isso exigirá medidas de correção que devem ser programadas desde já e colocadas em prática durante um longo período. Mas, até agora, muito poucos governos mostraram ter-se dado conta do problema. É grande, por isso, o risco de a crise acabar impondo uma conta muito alta às gerações futuras.Esse é o quadro que surge com muita clareza de um estudo recém-divulgado pelo FMI sobre o impacto das medidas de combate à crise nas finanças públicas de diferentes países. No grupo dos 20 países mais desenvolvidos do mundo, o G-20, que inclui os maiores países industrializados e vários países em desenvolvimento, como o Brasil, as medidas de enfrentamento da crise provocaram um aumento do déficit público equivalente a 5,5% do PIB de 2007 até agora.À medida que a crise arrefece, menores são as pressões por medidas de socorro, mas, observa o FMI, os déficits em que esses países já incorreram terão efeitos por muito tempo. Uma das conclusões mais impressionantes do estudo do Fundo é a evolução, já constatada ou prevista para os próximos cinco anos, da dívida pública dos países industrializados que fazem parte do G-20.Nos países mais ricos do mundo, a dívida dos governos, que correspondia a 78,8% do PIB em 2007, isto é, antes da crise, deverá chegar a 119,7% em 2014. É um aumento de mais de 40 pontos porcentuais, num prazo de apenas sete anos. A dívida do governo dos Estados Unidos quase duplicará, devendo passar de 63,1% do PIB em 2007 para 112% em 2014. A do Reino Unido mais do que dobrará em sete anos, pois deverá passar de 44,1% para 99,7% em 2014.A dívida pública como proporção do PIB crescerá também nos países emergentes que integram o G-20, mas de maneira bem menos aguda. De acordo com o FMI, ela passará de 37,5% do PIB em 2007 para o máximo de 40,2% em 2010 e se reduzirá a 36,4% em 2014. A relação entre a dívida pública brasileira e o PIB, segundo o FMI, passará de 57,7% em 2007, para o máximo de 70,1% em 2009, declinando lentamente nos próximos anos e chegando a 62,2% em 2014. Observe-se, porém, que o nível de endividamento do Brasil é um dos mais altos entre os países emergentes.O ajuste mais profundo, por isso, deverá ser feito pelos países ricos. Com base no crescimento médio observado nesses países e também na inflação média dos últimos anos, o FMI projetou o esforço fiscal (isto é, o superávit primário das contas públicas) que os governos desses países precisarão fazer ao longo de duas décadas, contadas a partir de 2014, para fazer a dívida pública voltar ao nível de 2007 ou mantê-la nesse nível.O governo americano, que tem gerado grandes déficits públicos até agora financiados sem preocupação por investidores internos e externos, terá de gerar um superávit primário equivalente a 4,2% do PIB durante 20 anos. Ao governo do Reino Unido caberá um esforço maior, de 4,5% do PIB. O Brasil, que alcançou resultados semelhantes a esses nos últimos anos, terá de esforçar-se menos, pois precisará gerar um superávit de 2% do PIB.Se isso não for feito, adverte o FMI, a dívida pública continuará a crescer nesses países, o que, em algum momento, gerará desconfianças entre os investidores. Para continuar obtendo financiamento para seus déficits, isto é, para continuar colocando os títulos de dívida pública no mercado no ritmo necessário para cobrir seus rombos, os governos terão de aumentar os juros. Isso pode resultar num espiral de dívida e juros, que acabará por afetar a atividade econômica. Assim, o custo do estímulo atual à economia poderá ser o desestímulo à atividade econômica no futuro.

, O Estadao de S.Paulo

04 de agosto de 2009 | 00h00

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