O delicado problema das cadernetas

Na entrevista que concedeu a esse jornal (5/4), o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, levantou um problema delicado: a redução da taxa de juros e suas consequências sobre a remuneração dos investimentos."Não podemos ter uma queda para empréstimos e ao mesmo tempo dizer que não pode haver queda em alguns investimentos", afirmou o presidente do BC. Ele se referia à remuneração das cadernetas de poupança que, com a progressiva redução da taxa básica, está se tornando um sério problema - já que em breve essa aplicação, que é isenta de Imposto de Renda, oferecerá uma rentabilidade líquida superior à de aplicações de prazo maior.Sabe-se que esse problema preocupa o presidente da República que, às vésperas de uma campanha eleitoral, não quer mexer nas cadernetas, que durante anos ofereceram remuneração muito baixa.No entanto, é difícil admitir que uma aplicação totalmente líquida ofereça remuneração mais interessante do que uma aplicação de longo prazo. A consequência dessa anomalia seria o desvio daquelas aplicações para as cadernetas de poupança, o que privaria as instituições financeiras de recursos de longo prazo, afetando negativamente todo o sistema financeiro.Criada em 1881, com a Caixa Econômica, a caderneta de poupança teve sua remuneração mudada segundo as variações da economia. Hoje, ela rende a Taxa Referencial (TR)mais 0,5% ao mês. Com a queda da Selic, para haver equilíbrio a TR precisaria ser fixada em 0%, o que dependeria de um Congresso pouco disposto a adotar uma medida contra os pequenos investidores. Outra solução seria definir o que é um pequeno investidor, que receberia remuneração plena, e limitar a remuneração para os grandes.Parece difícil escapar da necessidade de uma modificação da legislação atual, a menos que o BC renuncie a reduzir progressivamente a taxa básica. Caberia ao presidente da República tomar essa decisão, usando seu poder de comunicação para explicar que se trata de uma medida indispensável e que favorecerá a todos que recorrem a empréstimos bancários. Os Estados Unidos oferecem títulos da dívida interna, com prazo de 30 anos e remuneração em torno de 3%. Se as cadernetas de poupança oferecerem 6% ao ano, com vencimento à vista, esta será uma boa remuneração, com a inflação a 4,5%.

, O Estadao de S.Paulo

07 de abril de 2009 | 00h00

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