O desacerto europeu

A proposta de criação de um Fundo Monetário Europeu, lançada pelo governo alemão, é um novo desdobramento da crise iniciada com o desastre financeiro do governo grego. Nenhum problema real será resolvido a curto prazo com essa novidade. Para criar mais essa instituição, os governos da União Europeia terão de negociar um novo tratado. Depois disso, terão de montar a estrutura do novo organismo, preencher seus quadros de pessoal e abastecer seus cofres. Cada um desses passos implicaria negociações políticas e a solução de problemas tecnicamente complicados. A Grécia não poderá esperar tanto para ser socorrida. Além disso, outros países também estão a um passo de sérias dificuldades, com dívidas públicas elevadas e enormes buracos nas contas públicas.

, O Estadao de S.Paulo

15 Março 2010 | 00h00

Por enquanto, o debate recém-aberto pelas autoridades alemãs serve apenas para reforçar a rejeição de um recurso ao FMI para resolver problemas do bloco. A Europa ? esta é a ideia ? tem de cuidar dos próprios problemas. Só falta os europeus traduzirem essa noção em ações efetivas. Para isso, terão de enfrentar questões bem mais complicadas que a encrenca orçamentária grega.

Pelo menos quanto à Grécia um ponto parece claro. Se o país continuar na zona do euro, o governo terá de concentrar o ajuste na área fiscal. Outro governo em situação semelhante, mas não vinculado a uma união monetária, seria aconselhado a adotar, entre outras medidas, uma desvalorização cambial. Isso produziria uma desvalorização real dos salários, conteria o consumo interno e ao mesmo tempo tornaria as exportações mais competitivas. Seria preciso, de toda forma, arrumar as contas públicas por meio do corte de gastos e, talvez, do aumento de impostos. Mas parte do acerto seria realizado pela via cambial. Um país-membro de uma união monetária não tem tanta liberdade.

Outros países da zona do euro também terão de ajeitar suas contas públicas, conter o endividamento do Tesouro e, em muitos casos, combater o desajuste externo. Sua situação é menos grave que a da Grécia, mas algumas limitações políticas são comuns. Também não poderão recorrer a uma depreciação cambial e isso tornará a estabilização mais difícil e penosa.

Parte do problema, no entanto, está fora do alcance das políticas nacionais desses países. A maior economia da União Europeia, a alemã, continua superavitária nas transações com os parceiros do bloco. Esse quadro, segundo as indicações disponíveis, muito dificilmente será alterado, nos próximos tempos, tanto quanto se pode prever neste momento.

A Alemanha também tem déficit fiscal, mas muito menor que o da maior parte das economias europeias. Mas o país dispõe de uma robusta poupança privada, mantém-se competitivo e continua apresentando superávit na conta corrente do balanço de pagamentos. A imagem espelhada desse quadro é o déficit de outros países, principalmente da Europa.

Uma alteração desse panorama, com maior equilíbrio entre as contas dos vários países do bloco, facilitaria o ajuste. Mas a mudança dificilmente será propiciada pelos alemães. A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, foi muito clara ao responder a uma pergunta sobre o "modelo exportador" de seu país, numa entrevista recente.

O governo, disse a chanceler, não pode impor cotas de exportação às empresas do país. Da mesma forma, não pode impedir os cidadãos de poupar, em vez de consumir. Além disso, a fixação de salários depende de acertos entre empregadores e empregados, lembrou a ministra, e não há salário mínimo na Alemanha. Analistas econômicos têm apontado a contenção salarial no país como um importante fator de competitividade para os produtores alemães.

A solução dos problemas europeus vai além, portanto, da estabilização da economia grega. Os países deficitários não poderão dispensar programas de arrumação fiscal. Mas, se dependerem só da arrumação das contas públicas para eliminar seus desequilíbrios, a recuperação econômica será mais lenta. Os cidadãos sofrerão por mais tempo com a recessão e isso poderá produzir complicações políticas.

A longa experiência europeia de integração econômica foi insuficiente, até agora, para produzir a necessária articulação de políticas e de padrões de comportamento. É uma lição para quem pensa em apressar a integração sul-americana.

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