O desafio da educação e as fixações de Bolsonaro

Não haverá crescimento sem educação, nem educação se valerem os critérios do presidente

*Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2018 | 03h00

Com 38 milhões de analfabetos funcionais, escassa oferta de mão de obra qualificada, professores mal pagos e desprestigiados, baixo investimento em tecnologia e estudantes muito mal classificados em testes internacionais, o Brasil jamais sairá da mediocridade sem uma bem planejada e bem executada reforma educacional. Mas o presidente eleito, Jair Bolsonaro, mostra-se preocupado com a tal doutrinação política nas escolas e com a discussão de questões de gênero em salas de aula. Sua equipe talvez tenha algum plano para tirar do atoleiro a educação brasileira, mas, se esse for o caso, as propostas estão sendo cuidadosamente escondidas. Ele jamais tratou do assunto seriamente, nem durante a campanha eleitoral nem depois da vitória. Tem falado, ocasionalmente, sobre a importância de cuidar do ensino de algumas disciplinas, como Física, Química, Matemática e Português, mas nunca foi além disso, com as ideias travadas, aparentemente, por fixações ideológicas e morais – ou mesmo religiosas. Se essas fixações definem seus critérios para a política educacional, os brasileiros preocupados com o futuro do País – e de seus descendentes – têm motivos muito sérios para ficar bem mais inquietos, talvez apavorados.

Essas fixações, por enquanto, parecem dominar as ideias do presidente eleito sobre como cuidar do ensino. Ele havia prometido formar o Ministério com base em critérios técnicos. Esse padrão pode ter sido observado na seleção de alguns nomes para a área econômica, um processo conduzido pelo futuro ministro da Economia, Paulo Guedes. Mas o critério foi renegado de forma indisfarçável na escolha do ministro da Educação. Neste caso, em todos os momentos o padrão ideológico e religioso prevaleceu de forma ostensiva.

Não se trata, aqui, de simplesmente discutir ou criticar os caminhos seguidos no preenchimento de postos importantes. A questão central é outra, e obviamente muito mais importante. Se a escolha de um ministro é sujeita a um filtro ideológico, moral e até religioso, a política desenvolvida em sua área será isenta de condições da mesma natureza?

O nome do professor Mozart Neves, ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco, ex-secretário da Educação do governo pernambucano e diretor do Instituto Ayrton Senna, uma referência em questões educacionais, foi descartado rapidamente pelo presidente eleito por pressão da bancada evangélica. Os elogios de especialistas ao professor foram ignorados ou menosprezados.

O segundo nome em exame, o do procurador federal Guilherme Schelb, foi aplaudido pelos evangélicos. Seus predicados, logo conhecidos: ser favorável ao projeto de lei da Escola sem Partido e contrário à “ideologia de gênero nas escolas”. A escolha pegou muito mal fora dos grupos mais chegados à teocracia. O presidente eleito recuou.

O terceiro nome, o do professor Ricardo Vélez Rodríguez, vinculado à Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, favorável ao projeto Escola sem Partido e ideologicamente contrário ao “modelo atual de educação”, foi anunciado na quinta-feira como escolhido. O presidente eleito cuidou de divulgar a escolha.

O futuro ministro pode ter alguma ideia útil e relevante sobre política educacional, mas também se absteve, pelo menos até sexta-feira, de comunicá-la ao público. Segundo ele, o modelo atual está destinado a “desmontar os valores tradicionais da sociedade no que tange à preservação da vida, da família, da religião, da cidadania, em suma, do patriotismo”.

Se isso resume as preocupações do futuro ministro, a educação nacional continuará um desastre. Talvez ele tenha ideias mais compatíveis com a importância econômica e social de seu próximo posto, mas nada informou sobre isso.

Qualquer candidato a cuidar da educação brasileira deveria estar preparado para enfrentar pelo menos as seguintes questões: 1) Por que os alunos brasileiros vão tão mal no Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes? 2) Como melhorar os níveis fundamental e médio do ensino brasileiro, obviamente em condições muito más? 3) Como adaptar o ensino às condições impostas (sim, impostas) pela chamada revolução 4.0? 5) Como preparar professores para formar alunos capazes de atuar com sucesso na economia do século 21? 6) Que experiências bem-sucedidas no exterior poderiam proporcionar elementos a um programa de modernização educacional?

Esses são apenas alguns tópicos de importância evidente para o a política brasileira. Em vez de cuidar desses temas, políticos parlamentares da bancada do atraso, com apoio do presidente eleito e de seu futuro ministro da Educação, cuidam do repulsivo projeto de lei da Escola sem Partido.

Se aprovado, esse projeto nada fará pelo avanço do País, mas permitirá a implantação de um controle policialesco de professores e de escolas. Qualquer aluno vagabundo encontrará uma brecha para denunciar um professor por uma frase, uma atitude, uma proposta de discussão ou pela recomendação de uma leitura. Será o império da boçalidade, em padrões típicos do autoritarismo mais troglodita.

Quanto ao tratamento da questão de gênero, apenas uma observação. Discussões desse tema podem ser simplesmente uma forma de argumentar a respeito de direitos individuais e de padrões de relacionamento social. Não se distinguem, quanto a esse aspecto, de debates sobre liberdade religiosa ou sobre outros tópicos de direito constitucional e de organização política. Mas o presidente eleito e seus companheiros tendem a reduzir o debate sobre gênero a conversas impróprias sobre sexualidade.

Mais que estranha, essa é uma fixação assustadora quando se trata de política educacional. Basta pensar num aspecto da educação, sua importância como fator produtivo, para ver com horror o nível das preocupações do futuro presidente e de seus aliados. Chamar de medieval esse nível de pensamento é ofender a memória de figuras como São Tomás, Roger Bacon e Guilherme de Ockham.

*JORNALISTA

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