O desafio da Unesp

Pelo segundo ano consecutivo a instituição não está conseguindo pagar o 13.° salário

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2018 | 03h00

Com dificuldades orçamentárias decorrentes da queda da arrecadação do ICMS, da qual tem direito a 2,19%, e um déficit de cerca de R$ 30 milhões, a atual direção da Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho (Unesp) não teve outra saída a não ser adotar métodos utilizados na iniciativa privada para otimizar a gestão de recursos escassos. Pelo segundo ano consecutivo a instituição não está conseguindo pagar o 13.° salário de seus 3,6 mil professores e 5,6 mil servidores técnico-administrativos. O principal gargalo da Unesp está, justamente, na folha de pagamento. Do R$ 1,75 bilhão que ela já recebeu neste ano até setembro, 91,4% foram gastos com salários. Um terço da folha de pagamento é destinado ao pagamento de 2,1 mil professores e 4,7 mil servidores aposentados.

Das três universidades estaduais paulistas, a Unesp – que tem 52,6 mil alunos de graduação e pós-graduação – foi a que registrou maior expansão nos últimos anos, passando de 13 para 24 campi. Como consequência, o número de alunos matriculados na graduação cresceu 25%, entre 2006 e 2018. No entanto, essa expansão não foi acompanhada de um aumento proporcional de recursos orçamentários, o que levou o número de professores a crescer apenas 1% no mesmo período. “Foi uma expansão exagerada”, afirma o reitor da Unesp, Sandro Roberto Valentini.

Para cortar gastos e equilibrar suas contas, a primeira providência da instituição foi acabar com o vestibular do meio do ano, por causa do alto custo e da reduzida oferta de vagas – cerca de apenas 5% das 7,3 mil oferecidas anualmente. A segunda providência foi apostar em cursos a distância, pela internet ou canal fechado de televisão, e fechar cursos presenciais de graduação com baixa procura e altas taxas de evasão. Embora a taxa média de evasão da Unesp seja de 6,9%, no curso de física oferecido no campus de Presidente Prudente, por exemplo, a taxa tem sido superior a 41%.

Além disso, a Unesp decidiu fechar os cursos idênticos de graduação que são oferecidos em suas instituições espalhadas no interior do Estado. Essa justaposição de cursos pressiona as contas da instituição e, em vários deles, a demanda é baixa. “Essas mudanças acadêmicas não são para uma economia financeira, mas, sim, para evitar o desperdício do dinheiro público”, afirma o reitor. 

Também com o objetivo de cortar gastos, a terceira providência da Unesp foi reduzir os atuais 37 centros administrativos – que atendem 34 campi e a reitoria – para apenas 12, no período de dois anos. No plano acadêmico, a instituição também pretende desenvolver pesquisas em conjunto com universidades estrangeiras. Por propiciar prestígio internacional, essa estratégia pode levar a Unesp a obter recursos em agências mundiais de fomento a pesquisa.

Além disso, seguindo a trilha que a USP e a Unicamp estão tentando abrir há anos, a Unesp pretende buscar fontes de receita extraordinária fora do poder público, seja prestando serviços a empresas, por meio de consultoria, seja firmando parcerias com a iniciativa privada para desenvolvimento de pesquisas científicas, seja por meio da criação de um fundo destinado a captar recursos dos ex-alunos com carreiras bem-sucedidas. Apesar de ser utilizada em larga escala pelas universidades dos países desenvolvidos, essas formas de financiamento alternativo sempre sofreram forte resistência por parte do movimento estudantil, dos sindicatos de servidores técnicos e das corporações docentes, por razões políticas e ideológicas. Para essas entidades, por ser uma instituição pública, a Unesp teria de ter seus gastos com investimento e custeio inteiramente bancados pelo governo.

Como era de esperar, essas entidades já começaram a criticar o novo modelo de gestão adotado pela reitoria da Unesp, cujas propostas ainda precisam ser aprovadas pelo Conselho Universitário. Esse é o local onde será travado o embate que poderá levar a instituição a se tornar uma universidade de ponta ou afundar na obscuridade do corporativismo.

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