O desânimo da indústria

Já pouco confiante na possibilidade de retomada da atividade nos próximos meses - por causa das pressões inflacionárias, das incertezas a respeito da condução da política fiscal e do cenário internacional ruim, entre outros fatores negativos -, o empresariado industrial pode ter ficado ainda mais desanimado com os dados sobre emprego e renda divulgados pelo IBGE. Não houve, é verdade, nenhuma piora na situação do mercado de trabalho, mas a estabilidade da massa de renda real habitual em maio, na comparação com abril, confirma que a demanda interna, pilar do crescimento modesto dos últimos meses, perde vigor.

O Estado de S.Paulo

22 Junho 2013 | 02h10

Dois indicadores divulgados nos últimos dias mostram que, num cenário econômico marcado por sinais desalentadores tanto no plano interno como no externo, a indústria não espera a aceleração de seu ritmo de atividade. Os próximos meses devem confirmar a mais lenta recuperação do setor manufatureiro em uma década.

"A indústria desacelerou em 2011 e começou a se recuperar no segundo trimestre do ano passado, mas essa recuperação tem sido lenta", observou o superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Aloisio Campelo, ao comentar a prévia de junho do Índice de Confiança da Indústria (ICI) calculado pela instituição. A prévia apontou redução de 1,2% do ICI em relação a maio.

Calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) também caiu em junho, na comparação com o mês anterior. Nesse caso, a queda foi de 0,7 ponto (o Icei é medido em pontos), o pior resultado desde agosto do ano passado. O índice vem caindo lentamente desde março. Na indústria de transformação, a queda foi registrada em 19 dos 28 setores pesquisados.

A indústria continua a crescer e a utilizar mais sua capacidade instalada. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas, o nível de utilização da capacidade instalada (Nuci) no segundo trimestre de 2013 deve ficar 0,3 ponto porcentual acima do observado no primeiro trimestre. Mas é um crescimento lento, o que alimenta dúvidas sobre o desempenho da indústria nos próximos meses. A evolução do Icei nos últimos meses, observou a Confederação Nacional da Indústria, "põe em dúvida uma recuperação mais consistente da atividade industrial em 2013".

A desaceleração do consumo das famílias se somou à queda das exportações em razão da retração das compras pelos principais parceiros comerciais do Brasil. Embora possa ter impacto positivo em setores específicos, os estímulos oferecidos pelo programa Minha Casa Melhor - que oferece crédito barato para os beneficiários do programa Minha Casa, Minha vida que comprarem eletrodomésticos e móveis - não deverão ser suficientes para alterar o lento ritmo de expansão da indústria, na avaliação de Aloisio Campelo.

Ele lembra que mesmo os incentivos para a indústria automobilística - cuja atividade envolve uma cadeia de produção bem mais ampla do que a mobilizada pelas indústrias de móveis e de eletrodomésticos - tiveram impacto limitado.

A alta do dólar deve beneficiar as indústrias exportadoras. Mas, observou Campelo, "demora um pouco para que (a indústria) possa aproveitar os ganhos de competitividade trazidos pelo câmbio". A alta da taxa básica de juros, de sua parte, tende a reduzir esses ganhos.

Ao mesmo tempo que pode beneficiar o setor exportador, a alta do dólar tem impacto sobre os preços internos, que já estão pressionados. A inflação já afeta a evolução da renda dos brasileiros. Até há pouco, o rendimento real médio e a massa salarial vinham crescendo em termos reais. O que se observa no momento é sua estabilização.

Em maio, a renda real habitual cresceu 1,4% na comparação com maio do ano passado, mas ficou praticamente estável (aumento de 0,1%) em relação a abril. A massa salarial apresentou variações semelhantes, com crescimento de 1,5% sobre maio de 2012 e de 0,3% em relação a abril. É possível que os próximos meses apresentem resultados próximos desses.

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