O descaso com os semáforos

Funcionamento precário colabora para piorar ainda mais o difícil trânsito da capital paulista

O Estado de S.Paulo

31 Março 2018 | 03h00

Chegou a quase 100, em média, por dia o número de semáforos enguiçados no ano passado. Essa tradução estatística daquilo que os paulistanos sabem por experiência própria – especialmente nos dias de chuva forte, quando as falhas se multiplicam – é um retrato da situação a que se chegou com o descaso do sistema de semáforos. Mal conservado e ultrapassado, por culpa de sucessivos governos municipais, que investiram no setor muito menos do que o necessário, seu funcionamento precário colabora para piorar ainda mais o difícil trânsito da capital.

A situação se agravou no primeiro semestre de 2017, porque o contrato para a manutenção dos semáforos foi encerrado em dezembro de 2016, ao fim do governo do ex-prefeito Fernando Haddad. Nesse período, 4.312 do 6.400 semáforos da cidade tiveram falhas. O semáforo do cruzamento da Avenida Angélica com a Rua Maceió ficou apagado 91 vezes, o que dá uma ideia do ponto a que o descalabro chegou.

Quando as falhas começaram a aumentar, o prefeito João Doria fez questão de dizer que aquela era uma herança da gestão anterior, ressalvando que não fazia parte de seu perfil falar mal do antecessor. E acrescentou que não utilizava isso “como artifício para justificar o que fazemos ou deixamos de fazer”, certamente referindo-se à demora na regularização do serviço. Demora que só aumentou ao longo do ano por causa de problemas apontados pela Justiça e pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) nas propostas de novos contratos de manutenção feitas pela Prefeitura.

O caminho apontado por Doria para a solução definitiva do problema foi uma Parceria Público Privada (PPP) para cuidar dos semáforos. A Prefeitura busca uma forma de remuneração para as empresas interessadas, que deverão promover a modernização do sistema. O elevado custo desse trabalho, estimado em R$ 1 bilhão – que, nas atuais condições, a Prefeitura não consegue cobrir sozinha –, certamente pesou na decisão de Doria.

Os objetivos do projeto são ambiciosos: incluem, além da modernização da rede, um aumento de 20% do número de semáforos. Está prevista a instalação de mais semáforos inteligentes, que contam com dispositivos que lhes permitem medir o fluxo de veículos para programar os tempos de abertura e fechamento, de modo a organizar melhor o trânsito. É o caso também da ampliação da rede de semáforos sincronizados, que possibilitam aos veículos trafegar sem parar em cada semáforo em trechos mais longos de uma via.

Segundo o secretário municipal de Mobilidade e Transportes, Sérgio Avelleda, nos cruzamentos mais perigosos, esses novos equipamentos poderão ainda fiscalizar a velocidade dos veículos. E Doria aponta outra vantagem: os equipamentos não terão fio acessível, nem mesmo por escada, o que deve impedir o seu roubo, há muito tempo um dos principais responsáveis por falhas nos semáforos.

Melhorias como essas devem assegurar ganhos importantes, como aumento de cerca de 20% na fluidez do trânsito. Avelleda afirma que o controle mais eficiente do tráfego nos corredores de ônibus pode reduzir em até 10% a frota necessária para atender à demanda de passageiros.

A modernização e a ampliação do sistema de semáforos, pretendidas com o projeto de PPP proposto por Doria, são de fato medidas da maior importância para melhorar o trânsito na capital. Há muito que se reclamam tais providências. Elas são uma forma relativamente barata de dar maior fluidez ao tráfego, considerando o alto custo de outras opções, como a abertura de novas vias e, principalmente, a ampliação da rede de metrô – capaz de levar muitos motoristas a optar pelo transporte coletivo –, que, além de cara, é de construção demorada. Essa é mais uma razão que torna incompreensível o abandono a que foi relegado o sistema por tanto tempo.

Se esse projeto será mesmo levado avante, logo se saberá. Tendo em vista o histórico da questão, os paulistanos têm o direito de ser cautelosos nessa espera.

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