O desemprego como entrave

Passado ruim, presente pior, futuro inquietante. Estes são os pontos principais do novo balanço geral do mercado de trabalho

O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2016 | 06h00

Passado ruim, presente pior, futuro inquietante. Estes são os pontos principais do novo balanço geral do mercado de trabalho. A persistência do alto desemprego e a ligeira piora neste fim de ano são as mensagens mais assustadoras. Estavam em busca de ocupação 12,1 milhões de pessoas, 11,9% da população ativa, no trimestre encerrado em novembro. Os números eram pouco menores nos três meses terminados em agosto: 12 milhões de indivíduos e 11,8% da força de trabalho. A variação pode ter sido pequena. Mas o prolongamento da crise, sem sinal de melhora nos mercados, corrói a confiança de consumidores e empresários. As vendas fracas no fim de ano completam, por enquanto, o cenário. Só por enquanto. A desocupação ainda muito alta será um entrave para a retomada dos negócios no início de 2017. Recriar pacotes mágicos será caro e arriscado e poderá produzir desajustes maiores. Mas o governo terá de pensar um pouco mais no curto prazo, se quiser uma reversão mais pronta das expectativas e da atividade.

O desemprego de 11,9% é um recorde na série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), iniciada em 2012. Esse levantamento cobre 3.464 municípios e é atualizado mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados sempre se referem a trimestres móveis (com subtração de um mês numa ponta e adição de um mês na outra). No período agosto-setembro-outubro a desocupação ainda estava em 11,8% da população ativa.

Os desocupados passaram de 9,1 milhões para 12,1 milhões, com aumento de 33,1%, em um ano, até o trimestre encerrado em novembro. Nesse intervalo o desemprego saltou de 9% para 11,9%.

A população em idade de trabalhar (a partir de 14 anos) chegou a 166,8 milhões, com acréscimo de 2 milhões. Mas a força de trabalho atingiu 102,3 milhões, com aumento de apenas 1,1 milhão. Os demais ficaram fora da população economicamente ativa. Parte deve ter ficado apenas na escola. Outra parte deve ter-se juntado ao contingente dos nem-nem, isto é, dos nem estudantes nem trabalhadores. Em um ano a população ocupada diminuiu 1,9 milhão e passou a 90,2 milhões. À desocupada juntaram-se 3 milhões – quase o triplo, portanto, do aumento do contingente na força de trabalho.

A retração do consumo acompanhou, com algum atraso, a piora das condições no mercado de trabalho. Com menos pessoas empregadas, a massa de rendimentos habitualmente recebidos pelos trabalhadores, em todas as suas ocupações, diminuiu 2% em um ano, descontada a inflação. Essa redução pode parecer limitada, mas é preciso levar em conta outros fatores para entender a redução do consumo.

O crédito encolheu e ficou mais caro. As famílias endividadas precisaram cuidar de seus compromissos. As insolventes tiveram de renegociar as dívidas. Além disso, a multiplicação das demissões e a redução da atividade aumentaram a insegurança e induziram os consumidores a ser muito mais cautelosos. Dinheiro curto e crédito escasso são restrições sérias, mas tudo fica muito mais assustador quando aumenta o risco de perder o emprego ou de haver mais um desocupado na família.

O número de empregados na indústria até aumentou entre o período encerrado em agosto e o trimestre terminado em novembro – de 11,52 milhões para 11,54 milhões. Mas em um ano o emprego industrial foi o mais afetado pela crise. Na indústria geral o pessoal diminuiu 8,2%, com fechamento de 1,03 milhão de postos. Na construção o recuo foi de 9% (para 7,06 milhões), com redução de 702 mil empregados.

O emprego industrial vem diminuindo há anos, desde o meio do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Depois de ter sido por muito tempo o principal foco de dinamismo da economia brasileira, a indústria perdeu vigor, passou a investir muito menos, cortou postos de trabalho e tornou-se menos eficiente e menos competitiva. Consertar esse estrago será um dos principais desafios para a política econômica nos próximos anos.

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