O desfecho da invasão da USP

Se havia ainda alguma dúvida quanto à selvageria dos invasores do prédio da Reitoria da USP, ela foi desfeita pelo estado em que as instalações foram encontradas, após 42 dias de ocupação promovida sob pretexto de postular a adoção de uma gestão tripartite, com mandatos revogáveis por assembleias gerais. Segundo a perícia da Polícia Técnica, portas foram arrombadas, salas e equipamentos foram depredados, paredes foram pichadas com palavrões e palavras de ordem contra o reitor, gavetas e armários foram revirados e documentos foram jogados no chão.

O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2013 | 02h15

Além disso, constatou-se o desaparecimento de computadores, notebooks, celulares e de materiais do acervo histórico da instituição. Nas salas depredadas funcionam a USP Inovação (que desenvolve projetos para pequenas empresas), o escritório de relações internacionais da Universidade, a Secretaria-Geral, a Superintendência de Relações Institucionais, a Superintendência de Segurança e a Vice-Reitoria. Em nota, os dirigentes da USP classificaram a ocupação como "a mais destrutiva dos últimos anos" e prometeram processar os invasores por danos e furto de patrimônio público e responsabilizar o Diretório Central dos Estudantes (DCE) pelos prejuízos causados durante a ocupação. Na operação de reintegração de posse, que foi determinada pelo Tribunal de Justiça, dois alunos foram presos e serão indiciados por crime de formação de quadrilha.

A reação dos estudantes, que receberam a Tropa de Choque com rojões, foi a esperada. Eles alegaram que as prisões foram arbitrárias. Acusaram o reitor de "criminalizar" o movimento estudantil. Afirmaram que a perícia da Polícia Científica foi feita sem a participação de alunos. E lançaram nota de protesto contra o Tribunal de Justiça, que rejeitou o recurso impetrado pelo Diretório Central dos Estudantes contra a reintegração de posse do prédio da Reitoria. "É inadmissível que em meio a um processo de questionamento a Universidade opte por utilizar uma força totalmente desproporcional", disse Arielli Tavares, aluna do curso de Letras e integrante da diretoria do DCE, esquecendo-se de que "questionamento" com invasões e depredações é, mais do que vandalismo e baderna, crime tipificado pelo Código Penal.

Independentemente dos desdobramentos administrativos e jurídicos de mais uma invasão da Reitoria, é preciso dar um basta ao recurso sistemático à violência e ao "invasionismo" por minorias de extrema esquerda que dominam as corporações de estudantes, funcionários e docentes. É inaceitável que, em nome de uma mal definida democracia direta e participacionista, essas minorias tentem, periodicamente, paralisar as atividades de ensino e pesquisa da mais importante universidade brasileira.

Como são incapazes de mobilizar suas respectivas categorias, por total falta de representatividade, essas minorias - engrosssadas por militantes de fora da USP, filiados a pequenos partidos radicais - promovem atos ilegais e praticam vandalismo para chamar a atenção da mídia e passar a falsa impressão de que há uma revolução em curso na Universidade. Igualmente, criam situações de fato com o objetivo de obrigar o reitor a chamar a polícia, apresentando-se como vítimas para comover a opinião pública - e até magistrados ingênuos, que acreditam na viabilidade de "negociações" entre dirigentes universitários que não podem tolerar o descumprimento da lei, sob pena de incorrerem em crime de responsabilidade, e grupelhos que não escondem o desprezo pelo império da lei.

Este é o ponto central da questão: por princípio, a Universidade é uma instituição regida pela competência, pelo conhecimento e por padrões de excelência. O populismo, o assembleísmo e o aventureirismo ideológico, com eleições diretas e paritárias para todos os cargos - de responsável pelo serviço de copa ao reitor, passando por chefias de departamento e direção de faculdades -, são incompatíveis com o ethos das instituições de ensino superior.

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