O dia seguinte

Que o governo da presidente Dilma Rousseff e seu partido, o PT, afundaram o País em um mar de lama e incompetência, as multitudinárias manifestações ao longo deste ano já trataram de mostrar de forma inapelável. Que a legitimidade de Dilma trincou no instante em que ela foi pilhada no maior estelionato eleitoral da história recente do Brasil, as pesquisas de opinião confirmam matematicamente. Assim, mesmo a sempre hesitante e confusa oposição parece ter se sintonizado com esse clamor e encontrado, nas palavras do senador tucano Aécio Neves, uma rara “convergência”: Dilma deve sair, ou pela via do impeachment ou pela renúncia – que, para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, seria um “gesto de grandeza” da petista, pois ela já não governa mais.

O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2015 | 03h00

O problema é que à oposição não basta apenas se juntar ao cordão dos indignados nas ruas. Decerto aderir aos movimentos populares que pedem o afastamento de Dilma é uma decisão com grave significado político, mas não passa de um gesto simbólico. Na prática, a oposição ainda não apresentou ao País o que pretende construir no lugar das ruínas lulopetistas – e não o fez pela simples razão de que não sabe o que quer.

O PSDB é hoje provavelmente o principal beneficiário da crise do PT, mas carece de unidade e, portanto, de propostas concretas para o “dia seguinte” ao fim da era petista. Sua única liderança capaz de lhe dar rumo é Fernando Henrique, mas este não tem mais capital eleitoral. Resta-lhe o papel de conselheiro, em meio a um cipoal de interesses divergentes entre os caciques tucanos.

“Um ciclo político está se encerrando e há um outro emergindo. E as feições do novo ciclo não estão muito claras”, disse o cientista político Sérgio Fausto, do Instituto FHC, em entrevista ao Estado. Para ele, “o PSDB, a despeito do bom desempenho eleitoral de 2014, é um partido com dificuldade de definir uma linha clara de atuação parlamentar, seja na sua interlocução com a sociedade, seja na definição de uma clara diretriz política, na capacidade de falar com uma só voz”.

Em razão de disputas internas e de sua inaptidão para definir o rumo que pretende tomar, o PSDB parece navegar ao sabor dos acontecimentos. Em razão disso, o partido optou, em alguns casos, pela pura e simples irresponsabilidade, ao ajudar a aprovar no Congresso medidas que sabotam o ajuste fiscal. Dizem os adeptos dessa estratégia que, para minar o governo, vale tudo – inclusive renegar conquistas importantes do governo de Fernando Henrique, como o fator previdenciário.

É graças a atitudes como essas que, como diz Fausto, os tucanos “hoje têm um déficit de credibilidade, inclusive com seu eleitorado”, razão pela qual “a crise do PT não se traduz automaticamente num novo ciclo vitorioso do PSDB”. O partido parece ter concluído que chegou a hora de descer do muro, mas optou por aderir aos protestos de rua menos por convicção e mais por cálculo político. O problema é a evidente falta de estratégia e de unidade de propósitos.

Como explica Fausto, “o partido fez um movimento de aproximação dos grupos anti-Dilma com receio de ficar para trás nesse processo e, em algum momento, de ser punido eleitoralmente por não emprestar apoio ao movimento”. Mas, diz o cientista político, o partido não está unido e dá “dois passos para frente, dois para trás”.

É certo que, em política, nada é definitivo – mas é preciso transmitir alguma certeza sobre o futuro. No momento, contudo, a oposição ocupa-se somente de denunciar o que já está à vista de todos. Falta-lhe a grandeza de entender que o sangramento do governo não pode se dar à custa do sangramento do País. Agindo dessa forma, o PSDB e os demais partidos se arriscam a se deixar contaminar pela devastadora perda de credibilidade dos petistas e da presidente.

O fim do ciclo petista está sendo dramático para o País. Para vencer esse desafio, as oposições, em especial o PSDB, precisam demonstrar claramente que estão dispostas a assumir o ônus das mudanças necessárias para que o Brasil supere essa grave crise – que não é apenas política, econômica e social, mas é principalmente moral.

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