O dia seguinte

A polarização é própria da política eleitoral, porém, passada a eleição, deve prevalecer um espírito de boa vontade para que as dissensões não deem início a outra crise, esta de consequências imprevisíveis

O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 03h00

Há que se relativizar a ideia amplamente propagada de que foi o processo eleitoral que dividiu a Nação segundo os dois extremos do espectro político-ideológico. Primeiro, porque não é verdade. Além disso, a divisão política que ocorre com a sociedade no processo eleitoral não é um mal por si só. Ao contrário, é esperada no curso de uma campanha eleitoral democrática. Uma eleição contrapõe visões distintas sobre os rumos de um país e é de sua natureza opor opiniões e crenças diferentes, mas num dissídio que cessa assim que são apurados os votos – e não quando os “inimigos” são dizimados, como na guerra.

A julgar pelos resultados das pesquisas de intenção de voto, observa-se que, de fato, diante dos nomes sob escrutínio, os candidatos que compõem o chamado centro político – não o “centrão”, mas uma zona onde o compromisso é a saída natural dos dissídios – têm sido preteridos por candidatos que representam valores e ideias que, até recentemente, eram pouco aceitos pela maioria dos eleitores. Viceja o discurso sectário, a negação do diálogo para a construção de um compromisso nacional em torno das medidas a serem adotadas para tirar o Brasil da atual crise política, econômica e moral.

A polarização é própria da política eleitoral. Porém, passada a eleição, deve prevalecer um espírito de boa vontade entre todos os cidadãos, governantes e governados, para que as dissensões não deem início a outra crise, esta de consequências imprevisíveis. E o primeiro a estar imbuído por este espírito de compromisso há de ser o vencedor nas urnas.

No dia 28 de outubro, o País conhecerá o futuro presidente da República. É improvável que o eleito, seja quem for, conte com a simpatia ou a boa vontade da imensa maioria da população. Mas na manhã de segunda-feira, dia 29, milhões de brasileiros irão acordar para mais um dia de trabalho duro. Um deles terá a árdua missão de preparar o governo de um país em crise e carente não apenas de um discurso, mas de gestos de união.

A exemplo das instituições que lhe servem, a sociedade também deverá estar preparada para aceitar o resultado das urnas, seja qual for. Não será com o aprofundamento das fissuras que hoje desviam as atenções de expressivos segmentos da população do que realmente importa – as soluções para os graves problemas nacionais, e não a campanha de eliminação dos “inimigos” na lide política – que o País haverá de reencontrar o caminho para um futuro de paz, tranquilidade política e estabilidade econômica há muito almejado.

Já é conhecido o trabalho que deve ser feito tanto pelo próximo governo como pelo Congresso Nacional para que, nos próximos anos, o País possa sanear as contas públicas, atrair novos investimentos e, assim, voltar a crescer. 

Sugestões não faltam e são de conhecimento público, lastreadas por uma série de estudos assinados por especialistas genuinamente preocupados com o progresso do País. O próximo governo não poderá se afastar da agenda de reformas estruturantes cuja execução é condição sine qua non para a manutenção da solvência do Estado e, consequentemente, da capacidade de investir em áreas essenciais como saúde e educação.

Faz parte da agenda básica a reforma da Previdência, sem a qual o shutdown do Estado não será mais uma mera ameaça, mas uma realidade de tristes consequências. Louve-se aqui a disposição do presidente Michel Temer de, ao alto preço de desgastar ainda mais sua imagem, oferecer ajuda a seu sucessor para encaminhar a aprovação da reforma ainda este ano, aliviando a pressão, que já não será pequena, sobre o novo presidente a partir de janeiro de 2019.

Há um país a ser governado. Há problemas concretos que demandam rápidas ações para que seus efeitos nocivos sobre a sociedade sejam interrompidos. Uma massa de 13 milhões de brasileiros desempregados espera poder voltar a trabalhar vença quem vencer. A despeito das preferências políticas de cada um, o momento é de assunção de um compromisso nacional em torno de uma agenda de medidas essenciais, sem as quais qualquer debate político não será mais do que gritos de torcedores.

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