O 'diálogo' com os black blocs

O ex-senador Eduardo Suplicy estava com a corda toda na cerimônia em que assumiu a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo. Bem a seu estilo, fez um discurso em que defendeu o diálogo com todos os "movimentos" que têm participado de protestos na cidade, inclusive com os notórios black blocs - arruaceiros cuja única reivindicação é ter a liberdade irrestrita de causar o maior dano possível ao patrimônio alheio.

O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2015 | 02h06

Talvez seja o caso de não se levar a sério o que diz Suplicy - a menos, é claro, que se considere normal e sadio que uma autoridade municipal entre em negociação formal com quem deveria estar na cadeia.

No entanto, caso o agora secretário de Direitos Humanos resolva levar adiante sua esdrúxula promessa, será apenas mais um entre tantos atos irresponsáveis de uma Prefeitura que se apequenou diante de grupelhos radicais. Quem não se lembra do prefeito Fernando Haddad em cima de um carro de som, em março do ano passado, estimulando os baderneiros do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto a pressionar a Câmara Municipal a aprovar projetos de seu interesse? Diante disso, não surpreende que, em São Paulo, a truculência tenha se tornado o atalho preferido dos oportunistas para o encaminhamento de reivindicações ditas "sociais".

Ao "conclamar todos os movimentos" para "dialogar", Suplicy elencou diversos grupos, como os que defendem o passe livre, os homossexuais, os imigrantes e os negros, e entre eles incluiu os black blocs - como se fossem legítimos representantes de uma minoria.

Não foi a primeira vez que Suplicy considerou os black blocs dignos de serem ouvidos. Em 2013 ele leu, na tribuna do Senado, um manifesto daquele grupo. Dizendo que os black blocs eram, na verdade, "a sociedade civil, a juventude, os trabalhadores indignados por trás de um capuz negro", o texto, de um cinismo exemplar, informava que os vândalos "estão apenas se defendendo de uma polícia que carrega em seu cerne o autoritarismo assassino do regime militar". O manifesto exigia assim o "fim da Polícia Militar e de sua mentalidade fascista".

Não surpreende que a leitura de Suplicy tenha sido recebida com espanto e protestos por seus colegas no Senado. Mas o petista não se deu por vencido. Respondeu que os black blocs tinham de ser ouvidos, pois, embora eventualmente recorram à violência, apenas "buscam justiça" e têm "boas intenções".

O paulistano já conhece bem as "boas intenções" dos black blocs. Desde que foram apresentados a eles, nas manifestações de junho de 2013, os moradores de São Paulo sabem que, a qualquer momento, durante qualquer protesto do Movimento Passe Livre (MPL), esses mascarados estarão presentes para atacar estações do metrô, pontos de ônibus, agências bancárias e o que mais aparecer pela frente. Em sua tática, a esperada reação da Polícia Militar é sempre bem-vinda, pois assim os baderneiros podem posar de vítimas da repressão policial.

Neste ano, já foram seis os protestos promovidos pelo Movimento Passe Livre na cidade, e em todos eles os black blocs deram o ar da graça, sem que o MPL os censurasse nem tentasse deles se desvincular. Pelo contrário, a turma do passe livre tratou de criticar a Polícia Militar, que apenas fez seu trabalho ao prender alguns vândalos.

Mas o secretário não parece se importar com os transtornos que o MPL e seus parceiros truculentos estão sistematicamente causando à cidade. O que importa é "dialogar" - e Suplicy se disse animado até mesmo a participar de uma das manifestações do MPL, se isso ajudar a negociação.

Quando um secretário municipal se dispõe a esse tipo de atitude, que subverte totalmente o papel de um gestor da coisa pública, é sinal de que a crise que a cidade vive não é apenas administrativa, mas moral. Mas, como o secretário em questão é Eduardo Suplicy - aquele que, no Senado, já imitou Bob Dylan e vestiu cueca sobre as calças -, resta a esperança de que tudo não passe de uma grande blague.

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