O domínio da narrativa e a verdade alternativa

O comportamento eleitoral é um fato, mas o comportamento eleitoral futuro, não

JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE*, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2017 | 03h00

Devemos à criatividade do Supremo Tribunal Federal (STF) o conceito de domínio dos fatos. Deus à parte, nenhum ser humano domina fatos. Pode-se criar novos fatos, que eles permanecerão fatos, independentemente das narrativas. Se formos atrás, os fatos aparecerão fatalmente. Mas é preciso denunciar as verdades alternativas e substituí-las por outra baseada em fatos.

O domínio da narrativa é uma estratégia para impor, à percepção da realidade social e política, uma narrativa dominante, independente da materialidade dos fatos. Quem domina a narrativa poderá impulsionar sentimentos de adesão e de repulsa a tudo e a todos.

Um par de narrativas difundidas pelo nazismo obteve apoio coletivo para esmagar impiedosamente seus adversários reais ou imaginários. Tais narrativas não dispensam apenas os fatos, nem sequer exigem coerência entre elas mesmas. Tudo de que precisam é serem legitimadas por alguma instância, que lhes confere odor de santidade.

Trato, aqui, de algo extremamente nefasto: a narrativa dominante sobre a opinião pública brasileira, que invoca “pesquisas” como fator decisivo do comportamento eleitoral futuro. O exemplo é adequado, pois o comportamento eleitoral é um fato, enquanto o comportamento eleitoral futuro só pode ser produto de narrativa. Enquanto os números divulgados em pesquisas eleitorais são fatos, as narrativas sobre o que eles significam baseiam-se em ilações construídas à custa dos dados numéricos.

Uma das narrativas sobre as deficiências da representação política no Brasil atribui à ignorância do eleitor, seu conservadorismo, à má qualidade da classe política, à corrupção no País, etc. o baixo apoio da população à democracia. Todas as razões acima são até plausíveis, mas não se baseiam em fatos. Dados do Latinobarómetro sobre opinião pública na América Latina mostram uma variação de apoio à democracia entre 50% e 60% desde 1995, semelhante ao que ocorre na Europa.

O apoio à democracia na América Latina cresceu durante a recuperação da crise do peso mexicano (1994); caiu fortemente (de 63% para 46%) após a crise asiática (1997), crescendo de novo até 2010, na contracorrente da crise mundial e acompanhando o crescimento chinês; e caiu de 63% a 54% até 2016, acompanhando a retração do crescimento chinês. Enquanto isso, o apoio ao autoritarismo manteve-se entre 19% e 15%.

Na Europa, a trajetória da satisfação com a democracia, segundo o Eurobarômetro, varia segundo tendências análogas. O fator conjuntural também produziu uma variação mais brusca, só que com sinais trocados: enquanto na América Latina, que se beneficiou do crescimento chinês apesar da crise de 2007/2008, a satisfação com a democracia continuou em alta até 2010; e na Europa, que não se beneficiou em igual proporção, a satisfação caiu de 58%, em 2007, para 46%, em 2013.

Isso mostra que a opinião pública sobre o funcionamento da democracia, nos dois continentes, segue uma trajetória geral, e oscila a médio prazo, em função de fatores conjunturais, o que não impedirá a repercussão, na mídia, da narrativa sem base.

No domingo, nosso Estadão divulgou dados do Instituto Ipsos sobre a aprovação/reprovação de figuras públicas no País. Não se sabe bem o que deve ser aprovado ou reprovado. Mas, com base nessa resposta, o site do Ipsos conclui que os resultados confirmam “o vácuo de poder” e “mostram considerável fragmentação política e alta pulverização de partidos e candidatos”. Não mostram, não, mostram apenas respostas pouco precisas sobre uma única pergunta genérica. O resto são narrativas.

Para o diretor da pesquisa, as respostas refletem uma decepção com os rumos da Lava Jato. Três cientistas políticos consultados apresentam narrativas díspares, atribuindo a má avaliação dos membros do Judiciário ora ao seu protagonismo na Lava Jato, ora a seu corporativismo, ou em comparação com outros juízes, ou em razão da espetacularização do STF, fatores que, convenhamos, funcionam para o bem ou para o mal.

Tudo isso com dados de pesquisa metodologicamente confiáveis. E quando as pesquisas coletam fatos diferentes do que anunciam, isto é, nem sequer podem ser consideradas pesquisa?

Este é o caso do Paraná Pesquisa, que anuncia resultados de “pesquisa” online. Não fica claro qual a forma utilizada pela Paraná Pesquisa nem se a empresa emprega modelagens ou ponderações para corrigir erros amostrais. Ela simplesmente se refere à sua pesquisa como “online”. Em sua página no Facebook pode-se encontrar uma séria de “pesquisas” disponíveis para qualquer pessoa clicar no link e responder.

Basta esse fato para desqualificar tais “pesquisas” como instrumento legítimo de coleta de opinião. O método é idêntico ao de sites de coleta de abaixo-assinados: a autosseleção. O alvo, neste caso, é um setor dos usuários do site, que tem toda probabilidade de concordar com o conteúdo da ideia ou ação que receberá seu apoio. Sua representatividade não é relevante, o que conta é o apoio dos que compartilham da ideia ou concordam com a ação proposta. No caso do Paraná Pesquisas, a base de coleta é o universo dos seus seguidores, cuja composição se desconhece, mas reflete a concordância em participar, e não a diversidade do eleitorado.

A enorme distância entre os fatos e a narrativa é flagrante nesta “prévia” eleitoral de verdade alternativa: “Segundo o instituto Paraná Pesquisa, com base em 2.802 questionários online, entre os dias 15 e 17 (de agosto de 2017), Doria está disparado na frente”. Pergunta: “Entre Geraldo Alckmin e João Doria, quem seria o melhor candidato à Presidência da República em 2018?”. Divulgado recentemente, o que lhe confere ares de verdade, mas com metade das respostas “nenhum deles” ou “não sei”, nada indica que as escolhas não foram feitas por eleitores de outros candidatos, já que não se teve o cuidado de perguntar. Ou por algum motorzinho navegando em janela anônima...

* JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE É PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA USP

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