O duplo papel do Paquistão

Azedado pela descoberta de que Osama bin Laden vivia há 7 anos na militarizada cidade paquistanesa de Abbottabad, a apenas uma centena de quilômetros da capital Islamabad, e pela incursão americana ao reduto do líder terrorista, sem aviso prévio nem consulta ao governo do país, ainda assim o casamento de conveniência entre os Estados Unidos e o Paquistão não será desfeito. Prova disso foram as recentes manifestações oficiais de parte a parte.

, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2011 | 00h00

Ontem, no seu primeiro pronunciamento sobre a façanha americana, o primeiro-ministro paquistanês, Yousuf Raza Gilani, acusou os EUA de "violação da soberania nacional" e classificou como "absurdas" as acusações do diretor da CIA, Leon Panetta, de que o seu governo ou esteve acumpliciado com o chefe da Al-Qaeda ou foi incompetente para encontrá-lo. Mas Gilani disse também que os Estados Unidos continuam como aliado-chave de seu país e, mais importante, anunciou a abertura de uma investigação sobre a presença de Bin Laden no país.

Foi o que exigiu o presidente Barack Obama numa entrevista a uma emissora de TV, levada ao ar domingo. "Bin Laden deve ter tido alguma rede de apoio" no país, apontou, constatando o óbvio. Apenas deixou aberta a possibilidade de que a rede possa ter sido integrada por pessoas "de fora" do governo. De seu lado, porém, o assessor de Segurança Nacional dos EUA, Tom Donilon, disse, também em entrevistas, não haver provas de que as autoridades paquistanesas conhecessem o paradeiro de Bin Laden.

Aparentemente fazendo a sua parte no que seria uma política de morde-e-assopra em relação ao país islâmico, Donilon preferiu enfatizar a sua condição de "parceiro essencial" no combate à Al-Qaeda. Numa passagem amplamente destacada pela imprensa de Karachi, ele lembrou que "mais terroristas morreram e foram capturados no Paquistão do que em qualquer outro lugar no mundo". Isso é tão sabido quanto o antiamericanismo que lavra no país e as simpatias pelo fundamentalismo islâmico de parcelas da população e de setores das elites políticas, militares e dos serviços de informação - a começar do afamado ISI.

Suspeitos de facilitar o ir e vir de jihadistas pelas regiões de fronteira com o Afeganistão, funcionários de diversos escalões do organismo civil-militar decerto deram também cobertura a Bin Laden, quando ele decidiu procurar um abrigo mais seguro do que os seus esconderijos no território afegão, teoricamente ao alcance das mais de 100 mil tropas estrangeiras ali acantonadas, com recursos bélicos de alta tecnologia. Qualquer outra explicação é inverossímil. "O ISI é um patrimônio nacional e tem o apoio integral do governo", viu-se obrigado a rebater o primeiro-ministro Gilani, de quem o Exército é fiador, ressaltando a contribuição da agência para a campanha contra o terrorismo.

Novamente, uma coisa não exclui a outra, como Washington aprendeu a duras penas. A maioria dos paquistaneses e das lideranças civis do país tem hoje em dia escasso apreço pela Al-Qaeda. A sua eterna prioridade é a guerra fria com a Índia, igualmente dotada de armas atômicas. Mas, da perspectiva ocidental, basta que núcleos estruturados do sistema de poder paquistanês façam o jogo do inimigo. Como fizeram, nos anos 1990, quando os militares transferiram tecnologia nuclear para a Coreia do Norte, a Síria e a Líbia (que acabaria desistindo de fazer a bomba).

A realidade paquistanesa - que a superpotência americana não tem meios de moldar aos seus interesses - é a de um país dividido, com uma democracia precária e cujo Exército, fiel da balança política, não raro se conduz como uma instituição degenerada. É "a fonte da jihad no Sul da Ásia", acusa o autor paquistanês Aatish Taseer, em artigo publicado dias atrás no Financial Times de Londres. A sua história é reveladora. O pai de Aatish, governador do Punjab, foi morto em janeiro por um guarda pessoal. Desde então, multiplicaram-se no país manifestações pela soltura do assassino, orquestradas pelo grupo extremista Lashkar-e-Taiba. O movimento tem o apoio do Exército. Na semana passada, o seu líder, Hafez Saeed, conduziu orações em memória de Bin Laden.

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