O Egito em convulsão

Dois anos depois da revolução popular que derrubou o ditador Hosni Mubarak, o Egito está mergulhado em um quadro convulsivo de violência e instabilidade. A fragmentação política do país é hoje mais acentuada do que em qualquer outro momento desde que os militares obrigaram Mubarak a renunciar, em fevereiro de 2011. Logo que tudo começou, um mês antes, manifestantes puseram fogo na sede do Partido Nacional Democrático, a legenda do regime. Dias atrás, ameaçada de invasão, a sede do Partido Liberdade e Justiça, o braço político da Irmandade Muçulmana que elegeu Mohamed Morsi presidente em junho de 2012, teve de ser evacuada às pressas.

O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2013 | 02h11

Os primeiros choques de rua entre os secularistas e liberais, que conduziram os protestos contra a ditadura, de um lado, e os islamitas, que os derrotariam três vezes nas urnas, de outro, foram deflagrados quando o recém-empossado Morsi se outorgou plenos poderes, obrigando o Legislativo a abrir mão de alguns deles e estabelecendo condições para o exercício de outros. Os conflitos, já com a intervenção da odiada polícia de segurança do governo, aumentaram quando, em novembro, Morsi convocou a toque de caixa um referendo sobre o projeto de Constituição elaborado por uma comissão de ampla maioria islâmica e que em mais de uma passagem sujeita o Estado egípcio a instituições muçulmanas, além de conceder imunidade legal às Forças Armadas.

Numa votação de que participaram apenas 30% do eleitorado, o texto foi aprovado com maioria de 64%. As 15 mil denúncias de fraudes levadas ao Supremo Comitê Eleitoral só começaram a ser examinadas cinco dias depois de Morsi promulgar a nova Carta. Em seguida, ele escolheu a dedo os 90 membros da Shura, o equivalente ao Senado no Egito, dotados de poderes legislativos até a eleição de um novo Parlamento, provavelmente em abril. O anterior, formado na virada de 2011 para 2012 - no primeiro pleito verdadeiramente livre no país desde a queda da monarquia, em 1952 -, foi dissolvido pela Justiça, sob a alegação de insanáveis irregularidades na sua composição. A fronda muçulmana havia conquistado 65% dos votos e 70% das cadeiras.

Mais de uma vez Morsi tentou chamar a oposição para um "diálogo nacional". Ora ela rejeitou o convite, ora ele foi desautorizado pelo Guia Supremo da Irmandade Muçulmana, Mohamed Badie - de quem, segundo os liberais, Morsi seria apenas um pau mandado. Nada mais natural que a polarização política e o crescente descontentamento com o desemprego, a inflação e a criminalidade em alta tenham se expressado vigorosamente no segundo aniversário da revolução da Praça Tahrir. O imponderável fez o resto. No fim da semana passada, turbas exaltadas e armadas, em alguns casos com armas de fogo, tomaram as ruas de Port Said, a principal cidade do Canal de Suez, em protesto contra a decisão judicial de condenar à morte 21 acusados de provocar o massacre de 74 torcedores no estádio local, em fevereiro de 2012.

As manifestações e a repressão policial se propagaram por outras cidades e chegaram ao Cairo. Em meio a 50 mortes e centenas de prisões, Morsi decretou estado de emergência e toque de recolher em Port Said, Ismaília e Suez, enquanto a Shura ratificava a lei que dá às Forças Armadas poderes policiais para prender civis. A emergência foi execrada e o toque, ignorado. As forças de segurança passaram a ser atacadas com coquetéis molotov. A autoridade do governo está em frangalhos. A Polícia hostiliza o ministro do Interior que a chefia. O Exército, ainda respeitado, guarda distância dos confrontos.

Liderada por Mohamed ElBaradei, a Frente de Salvação Nacional, de oposição, reivindica um governo de união nacional e a reforma da Constituição - ou a antecipação da eleição presidencial de 2016. A promessa de Morsi, ao tomar posse, de que seria "o presidente de todos os egípcios" é citada com escárnio. A volta dos militares ao poder, para resgatar a autoridade do Estado, deixa de ser impensável. Um cenário de convulsão duradoura, tampouco.

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