O eleitor desencantado

Os candidatos poderão superar o desencanto do eleitorado se, na campanha, demonstrarem que as eleições de fato podem mudar o País para melhor

O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2018 | 03h00

Nada menos que 59% dos eleitores entrevistados na mais recente pesquisa do Ibope para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) não têm candidato a presidente. No cenário mais provável, sem o petista Lula da Silva, preso e inelegível, são 31% os que pretendem votar em branco ou anular o voto e 28% os que não souberam ou não quiseram responder à pergunta. Esses dados são da pesquisa espontânea, quando não são apresentados nomes de candidatos ao entrevistado. No mesmo momento da campanha presidencial de 2014, havia, na pesquisa espontânea, 37% de indecisos e 16% de eleitores que pretendiam anular o voto. Ou seja, hoje há menos indecisão e mais vontade de anular o voto. O cenário revelado pela pesquisa mostra, portanto, um grau considerável de desencanto a pouco mais de dois meses do primeiro turno da eleição.

Não se trata de simples indefinição de voto, situação em que o eleitorado está esperando o início formal da campanha para escolher seu candidato. O contingente de indecisos é grande, mas salta aos olhos a hostilidade de parte substancial dos eleitores em relação a qualquer candidato e, pode-se dizer, à própria política.

A mesma pesquisa mostra que 29% dos eleitores que pretendem anular o voto ou votar em branco vão fazê-lo porque consideram que “todos os candidatos são corruptos”. Além disso, 11% mencionaram que “não acreditam em políticos e nos candidatos”, e 11% disseram que “nenhum dos candidatos resolverá os problemas do País”. Ademais, 56% disseram que não iriam votar se o voto não fosse obrigatório.

Não é difícil perceber que esse desgosto com a política tem relação direta com os sucessivos escândalos de corrupção alçados às manchetes desde a eclosão da Operação Lava Jato, há mais de quatro anos. É fato incontroverso que a operação foi responsável por desbaratar uma sofisticada quadrilha de políticos e empresários dedicada a assaltar a Petrobrás e outras estatais, razão pela qual tem um lugar assegurado entre os grandes feitos da história nacional. Contudo, como efeito colateral do sucesso da operação, alguns de seus líderes se julgaram investidos da missão de purificar a política brasileira em geral, levantando, leviana e ruidosamente, suspeitas sobre todo e qualquer político de algum destaque, nivelando culpados e inocentes – e permitindo que os verdadeiros criminosos posassem de “perseguidos políticos”.

Essa operação de terra arrasada colhe agora seus frutos, na forma de distanciamento do eleitor. Embora 70% dos entrevistados na pesquisa CNI/Ibope concordem, total ou parcialmente, que eleições presidenciais têm o “potencial de mudar o País para melhor” e 85% afirmem que “o voto de cada brasileiro importa”, 45% se dizem pessimistas ou muito pessimistas em relação à eleição de outubro, contra 23% que se consideram otimistas ou muito otimistas. A principal razão para o pessimismo, claro, é a corrupção (30%), e 19% afirmaram que não confiam mais no governo ou nos candidatos.

Nesse cenário, chega a 61% o total de eleitores que manifestaram total ou parcial desinteresse pela eleição. Mas a pesquisa revela também que uma parte significativa se dispõe a mudar de ideia, a depender da campanha. São 70% os que disseram que vão prestar muita ou alguma atenção nos candidatos e em suas propostas – e mesmo entre os que responderam que não têm nenhum interesse na eleição há 42% que admitem disposição de ouvir o que os candidatos têm a dizer.

Isso significa que os candidatos poderão superar o desencanto do eleitorado se demonstrarem, na campanha, que as eleições de fato podem “mudar o País para melhor”, como esperam 70% dos eleitores. Para isso, um bom começo é prometer somente aquilo que se pode cumprir e deixar claro que não há mágica para a solução dos graves problemas nacionais. Do mesmo modo, as eleições só terão essa virtude regeneradora se o eleitor se conscientizar de que políticos corruptos e oportunistas não surgem por abiogênese – alguém os colocou lá. Renunciar à intransferível responsabilidade de escolher bem os representantes políticos significa lavar as mãos e aceitar a degradação da democracia.

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