O emprego, desafio global

A recuperação global continua, mas de forma desigual e insuficiente para restabelecer o nível de emprego anterior à crise iniciada em 2008. Há no mundo cerca de 200 milhões de desempregados, 30 milhões a mais do que antes da crise. Até 2018, mais 13 milhões podem entrar nesse contingente. O número atual inclui 74 milhões de jovens. Esses dados são mais que suficientes para fazer da criação de postos de trabalho um grande tema para os principais foros econômicos, incluído o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas será possível usar a política fiscal para esse objetivo e, ao mesmo tempo, continuar ajustando as contas públicas? Respostas diferentes para diferentes grupos de países foram sugeridas por economistas do FMI. O governo brasileiro deveria pôr de lado suas bravatas e examinar o assunto com algum cuidado.

O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2014 | 02h05

O desemprego é especialmente alto nos países avançados. No mundo desenvolvido, a média aumentou de 5,8% para 8,5% desde o começo da recessão, há seis anos. Nas economias emergentes e em desenvolvimento, as porcentagens foram "normalizadas", mas os problemas de pobreza e desigualdade continuam graves. Em todo o mundo, portanto, criar oportunidades de trabalho é um desafio urgente.

Pode-se usar a política fiscal, segundo o FMI, como complemento de reformas estruturais para aumentar a geração de empregos. Governos empenhados em reduzir o déficit orçamentário podem, por exemplo, ajeitar o cronograma de ajuste para diminuir o impacto negativo no ritmo de contratações.

Podem também promover mudanças tributárias para facilitar a abertura de vagas. A redução de encargos trabalhistas favoreceria a contratação de jovens. Será preciso, no entanto, planejar as mudanças, calcular seus efeitos sobre as contas públicas e preservar a credibilidade da política fiscal. Tudo muito diferente da improvisação dominante no Brasil.

Mudanças nos mercados de trabalho e de bens vêm sendo recomendadas pelo FMI há anos, principalmente aos europeus. Os mercados são bem menos flexíveis na Europa do que nos Estados Unidos. Isso explica em parte a maior rapidez da recuperação da economia americana, acompanhada de forte redução do desemprego. O FMI tem recomendado também a conciliação das políticas de ajuste fiscal com estratégias de superação da crise.

Embora com déficits e dívidas menores, muitos emergentes têm menos condições que os desenvolvidos para recorrer a estímulos fiscais. Seus governos devem dar atenção especial à recuperação do potencial de crescimento, às deficiências de infraestrutura e às enormes tarefas pendentes na área social. Mas podem ampliar as possibilidades de emprego cuidando exatamente desses pontos - logística, energia, educação, saneamento e programas de saúde, por exemplo.

Não basta, no entanto, aumentar os gastos. É preciso cuidar da eficiência dos programas e garantir o máximo retorno para o investimento em cada setor, assim como é indispensável avaliar com atenção os ganhos de cada tipo de incentivo. A política brasileira de desenvolvimento tem falhado em todos esses quesitos. O governo alardeia a criação de empregos, mas a abertura de postos de trabalho tem sido cada vez mais lenta. Além disso, a proporção da população ativa tem diminuído e isso se reflete em taxas menores de desemprego. Enfim, é preciso considerar também a qualidade dos empregos criados. Os postos têm surgido principalmente em atividades de serviços de baixa produtividade e baixa remuneração. A indústria, embora carente de mão de obra qualificada ou em condições de ser treinada, tem dispensado pessoal. As demissões são consequência da estagnação, explicável pelo investimento insuficiente, pelo aumento de custos e pela continuada redução da competitividade. Cuidar da eficiência é condição indispensável para a criação de empregos, mas o governo tem desprezado esse requisito. Muito mais fácil é atribuir o mau desempenho da economia brasileira às condições externas e repetir bravatas sobre a criação de postos de trabalho.

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