O emprego e as expectativas

A desocupação diminuiu 0,7% ante o 1.º trimestre

O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2018 | 03h00

Um prato de feijão com arroz é mais gostoso, nutritivo e necessário que uma carteira assinada – para o trabalhador e para sua família. Por isso, 276 mil pessoas aceitaram empregos sem registro no setor privado, no período de abril a junho. Com isso, o número de empregados informais nesse setor aumentou 2,6% do primeiro para o segundo trimestre, atingindo o total de 11 milhões. O contingente contratado com todos os papéis ficou estável em 32,8 milhões. Somados governo e setor privado, a população ocupada, de 91,2 milhões, ficou 0,7% maior que nos meses de janeiro a março, com abertura de 657 mil postos. A desocupação diminuiu 0,7% em relação ao primeiro trimestre e passou de 13,1% para 12,4% da população ativa, com 13 milhões de pessoas em busca de trabalho. Um ano antes o desemprego estava em 13%. Houve melhora estatística nas duas comparações, mas o abandono da força de trabalho por 66 mil pessoas, no último período, contribuiu para esse resultado. O desalento pode ter levado essas pessoas, ou parte delas, a abandonar a procura de uma colocação. Esse contingente quase certamente voltará ao mercado quando houver mais oportunidades.

Apesar de todas as dúvidas e ressalvas, o novo quadro do emprego mostrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é positivo, especialmente porque a maior oferta de vagas ocorreu num trimestre marcado pelo criminoso e desastroso bloqueio de estradas. A paralisação do transporte rodoviário prejudicou severamente a atividade econômica a partir do fim de maio. Seus efeitos diretos podem estar superados, mas os indiretos – associados, por exemplo, à criação de uma tabela de fretes fixada em lei – ainda atrapalham a contratação de serviços de caminhões.

Sem a crise do transporte, a criação de empregos em maio e junho teria superado, talvez, os números indicados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, realizada pelo IBGE. Essa é uma hipótese razoável, especialmente quando se considera a melhora dos negócios em abril, depois de um primeiro trimestre fraco. Essa melhora foi interrompida em maio, por causa da paralisação dos caminhões num país com excessiva dependência de rodovias. Sinais de alguma recuperação em junho têm aparecido, apesar das perdas do período recente e das incertezas políticas.

Um dos sinais positivos é a elevação de 12,1%, em junho, do Indicador de Nível de Atividade (INA) publicado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Esse aumento compensou a queda de 10,8% ocorrida em maio por causa da crise do transporte. A recuperação foi puxada principalmente pelo aumento das vendas, um salto de 24,7% depois de uma queda de 16,6%. As horas de trabalho na produção, com aumento de 0,9%, também contribuíram para a alta do INA.

Os novos dados do emprego, apesar de alguns aspectos positivos, são insuficientes, segundo alguns analistas do mercado, para justificar alguma expectativa mais otimista quanto aos próximos meses. A insegurança política, segundo argumentam, tem maior peso.

A incerteza é sem dúvida um fator muito importante, mas, apesar disso, expectativas de empresários e consumidores têm melhorado, depois da queda recente. Depois de cair 2 pontos, o Índice de Confiança Empresarial medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) subiu 0,9 ponto em julho. Um dos componentes do índice, a avaliação da situação atual, chegou ao maior nível desde 2014. A economia, como disse um técnico da FGV, segue girando, embora devagar. O outro componente do índice, relativo às expectativas, continua negativo, refletindo provavelmente a incerteza eleitoral.

O Índice de Confiança do Empresário Industrial, medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), também melhorou, passando de 49,6 pontos para 50,2, pouco acima do limite entre pessimismo e otimismo. Não é grande coisa, mas parece apontar a disposição de manter a atividade adiante, mesmo devagar, através do nevoeiro. Apesar da insegurança, o País ainda se move e se distancia da recessão.

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