O emprego reage, mas devagar

O próximo governo encontrará, provavelmente, o pior cenário da América Latina

O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2018 | 03h00

Com a criação de 928 mil postos de trabalho num trimestre, o desemprego voltou a cair, depois de um repique nos primeiros meses do ano, mas o próximo governo ainda encontrará um mercado de emprego em condições muito ruins. O cenário é o pior da América Latina, excluído provavelmente o do Haiti, um país com estatísticas muito desatualizadas. Com desocupação de 12,3% da força de trabalho, os brasileiros em busca de oportunidade ainda eram 12,9 milhões no período de maio a julho. Houve um avanço nada desprezível em relação ao trimestre móvel de fevereiro a abril, quando os desocupados eram 12,9% da população ativa. Mas essa melhora nem mesmo compensou derrapagens ocorridas depois de uma fase de sensível progresso nos níveis de ocupação. No ano passado, no trimestre de abril a julho, o desemprego aberto era de 12,8%. Em um ano, os postos criados ficaram em 983 mil, numa trajetória complicada pelo fraco desempenho da economia nos primeiros três meses de 2018. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, produzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A criação de empregos depende do aumento da atividade econômica e das expectativas dos empresários. Desse lado, as possibilidades de maior oferta de vagas nos próximos meses são pouco animadoras. Mas o cenário fica menos promissor quando se pensa na relação inversa entre nível de ocupação e ritmo dos negócios. O alto desemprego limita severamente a expansão do consumo. Essa limitação afeta em seguida o aumento da produção e, portanto, novas contratações pelas empresas.

Quando se pensa no consumo, um detalhe especialmente positivo se destaca entre as últimas informações sobre o mercado de trabalho. Apesar da lenta expansão dos negócios, o rendimento médio habitual dos trabalhadores ocupados tem ficado estável, descontada a inflação. O valor chegou a R$ 2.205 no trimestre de maio a julho, pouco acima do contabilizado um ano antes (R$ 2.188). A massa de rendimento real (R$ 197,2 bilhões) também pouco variou, atingindo nível pouco superior ao do trimestre correspondente de 2017.

A estabilidade do rendimento médio real e da massa de rendimentos é explicável principalmente pela inflação moderada, mantida por muitos meses abaixo da meta anual de 4,5%. A evolução favorável dos preços dos alimentos beneficiou principalmente as famílias mais pobres, porque o seu orçamento é o mais onerado pelos gastos com comida.

Também pela preservação do poder de compra das famílias de baixa renda e de renda média a inflação contida é um fator especialmente importante para a recuperação da economia. O consumo privado tem sido um dos motores da recuperação. Apesar da lenta expansão, a maior parte dos indicadores econômicos tem continuado acima dos níveis do ano passado. Inflação baixa é também relevante para a contenção dos juros e para a segurança do planejamento empresarial.

Todas essas variáveis poderão ser afetadas nos próximos tempos pela evolução das campanhas eleitorais e pelas perspectivas de vitória de candidatos mais ou menos comprometidos com políticas voltadas para o fortalecimento da economia. Esse fortalecimento dependerá da reconstrução das finanças públicas, do controle da dívida governamental, do uso mais eficiente das verbas oficiais e da realização de reformas modernizadoras. Sinais contrários a esses objetivos indicarão desequilíbrios maiores, menor eficiência na gestão pública e aumento da inflação.

A mais cruel das consequências será a manutenção e talvez o aumento do desemprego. Mas o desemprego aberto é só uma parte de um cenário muito ruim. Adicionando-se aos desempregados o contingente dos subocupados e o da força de trabalho potencial, a subutilização total da mão de obra chegou a 24,5%, taxa correspondente a 27,6 milhões de pessoas. Além de cruel, esse quadro revela um espantoso desperdício do mais precioso fator de produção, a capacidade humana de trabalho.

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