O empresário nacional é maior que os políticos

Quem visitou o Brasil num passado recente custa-lhe a acreditar que nós, os brasileiros, estamos hoje nesta situação. Parece que todos os problemas, como numa velha mansão, eram varridos para debaixo do tapete. De repente, alguém resolveu bater a poeira e deu no que deu. A situação é como se tivéssemos voltado 20 anos na economia. Ninguém investe, ninguém aluga, ninguém compra. E não é apenas uma questão de “abulia” dos empresários, nem porque eles são “avoengas”, como disse uma autoridade em recente entrevista.

Roberto Duailibi*, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2015 | 03h00

A situação está, de fato, muito ruim. Mas não vejo como positivo ficar alardeando aos quatro ventos que as empresas vão mal, que qualquer um pode chegar aqui e comprar uma empresa brasileira a preço de banana. Por isso, como sou alguém que já enfrentou governos como o de Jango Goulart, Jânio Quadros, Fernando Collor, João Figueiredo, acho que é preciso dizer que vivemos, sim, um mau momento. Porém temos de ter calma, e não cair no desespero.

De todo modo, convém alertar as nossas autoridades, sobretudo as econômicas, a respeito do que temos passado. O brasileiro, principalmente os empresários, está sem esperança. Pior que isso, está com medo, sem perspectiva.

Nos últimos anos assistimos a inúmeros movimentos no sentido de baixar impostos, há tempos os empresários reclamam da carga tributária excessiva sobre os produtos, reclamam da exagerada quantidade de encargos sociais. Isso faz apenas encarecer os preços finais. Sem contar a falta de infraestrutura, de condições legais, de marcos regulatórios. 

Chegamos ao ponto em que ser empresário passou a ser um esforço desafiador de sobrevivência. Não à toa o mundo admira as qualidades criativas dos executivos nacionais e até os contrata a peso de ouro. Pois bem, tudo isso agora, degringolou. Mas tenho certeza que não de vez.

Com a taxa de juros acima dos 14%, qualquer empréstimo para capital de giro oscila na faixa do custo de 20%, no mínimo. Dessa forma, uma empresa que precise de um empréstimo terá de pensar em produzir algo que lhe renda acima disso. Convenhamos que quase nada na escala produtiva oferece margens assim tão elevadas. Eu pessoalmente desconheço um setor que consiga atingir marcos tão relevantes.

Pelo terceiro trimestre consecutivo amargamos dados negativos referentes ao produto interno bruto (PIB), e bastam dois trimestres para caracterizar o ambiente recessivo. Na comparação com o terceiro trimestre do ano passado, fechamos quase 5% abaixo.

Bem, mas e quem não precisa de recursos de terceiros, de recorrer a bancos? Esses poucos abonados, capitalizados, poderiam aplicar na produção, claro, mas com os bancos pagando, no mínimo, 1% ao mês, a maioria vai preferir deixar o dinheiro dormindo a aplicar em algo produtivo. Em novembro, os fundos imobiliários, por exemplo, renderam 1,6% de correção. Isso desestimula o investimento na produção. De novo é o instinto de sobrevivência e previdente de todo mundo falando mais alto.

Em outra leitura, aplicar na produção é fazer o dinheiro encolher na faixa de 20% ao ano. Será que as nossas autoridades monetárias fizeram esses cálculos?

Além de tudo isso, os impostos não param de subir, os encargos, então, surgem novos a cada dia. Para deixar a coisa ainda mais complicada tem o dólar. Fica claro que há levantes mundiais apostando contra a moeda brasileira. Com isso, o real derrete ante o dólar e a não ser que a empresa exporte e aproveite essa fase tudo o mais fica ainda mais difícil: a compra de matérias-primas lá fora, a evolução de insumos que têm cotação internacional, etc.

Por essa valorização cambial, também as empresas, cujos ativos já estão bem subavaliados pela queda de demanda no consumo, acabam virando alvo fácil para investidores estrangeiros. Principalmente quando eles avaliam o enorme potencial do mercado consumidor brasileiro.

Vamos supor que um grupo estrangeiro importante, capitalizado, faça uma reunião do seu conselho de administração e, a despeito da perda do grau de investimento do Brasil, da crise política e da falta de rumo, aprove tirar um porcentual pequeno de seus recursos e aplicar no Brasil. Vale lembrar que a relação 4 por 1 transforma mil dólares em 4 mil reais. O resultado pode ser uma enorme onda de desnacionalização de nossas empresas. O que se tem de perguntar é se isso é bom ou ruim.

Quem conhece minimamente o Brasil sabe que mesmo diante desse risco é preciso que o empresariado se una, resista e não permita que isso aconteça. A crise é, sim, muito perversa e dura, mas será passageira. Aos poucos e com as decisões corretas no campo econômico, dentro de um ambiente político com menos solavancos, certamente reencontraremos as condições ideais da retomada. O Brasil precisa muito disso, precisa criar novos postos de trabalho todos os anos, abrir novas empresas, estimular o surgimento de novos empresários. Não podemos, pela desesperança, desperdiçar talentos e o espírito empreendedor que está incutido em nossos cidadãos.

Certamente muitos têm interesse em manter esse círculo vicioso no qual todos apenas reclamam e se lastimam. Alarmar todo mundo com teorias catastrofistas é tudo o que não precisamos neste momento.

As futuras gerações precisam de perspectiva. Os empresários precisam garantir empregos, voltar a investir. Precisam voltar a acreditar no Brasil. Até porque os governos passam e as empresas se renovam. Quantas pessoas dependem delas, quantos trabalhadores e suas famílias...

Os governantes, que estão de passagem, deixem um legado de seriedade ao País. Em vez de elevar impostos e criar outros, pensem em políticas de longo prazo, na criação de condições minimamente razoáveis para que os empreendedores brasileiros superem este lamentável momento.

*Roberto Duailibi é publicitário.

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