O escândalo do Denarc

O escândalo de corrupção que envolve o Departamento Estadual de Repressão ao Narcotráfico (Denarc) - desvendado por investigações da própria polícia, acionada pelo Ministério Público Estadual, que levaram à prisão de dois delegados e cinco investigadores - tem dimensões e características que abalam seriamente a credibilidade da polícia e, por isso, exige uma resposta à altura por parte das autoridades. Além da punição exemplar daqueles cuja participação nesse esquema criminoso for comprovada, é indispensável uma reestruturação de todos os setores do aparelho policial atingidos e a adoção de procedimentos destinados a evitar a repetição de casos semelhantes.

O Estado de S.Paulo

17 Julho 2013 | 02h11

Um dos delegados presos é ninguém menos que o chefe do setor de inteligência do Denarc, Clemente Castilhone Júnior, e o outro é Fábio Amaral de Alcântara, do mesmo Departamento. Segundo o Ministério Público, pesa sobre todos os policiais presos a acusação de recebimento de propinas para passar informações a traficantes e retardar investigações. Entre os crimes pelos quais terão de responder estão roubo, extorsão mediante sequestro, formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva e tortura. Os traficantes pagavam aos policiais "anuidades" que chegavam a R$ 300 mil e "mensalidades" de até R$ 30 mil.

As investigações que possibilitaram desmontar esse esquema de corrupção começaram em Campinas, no ano passado, com base em escutas telefônicas de traficantes ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), autorizadas pela Justiça a pedido do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público. Houve vazamento de informações por parte dos envolvidos no esquema, durante as investigações, de forma a dificultar os trabalhos dos policiais e promotores. Comprovou-se que a certa altura houve atraso no pagamento das propinas e os acusados não hesitaram em cobrar a "dívida" até dos parentes dos bandidos, como forma de intimidá-los.

Tudo isso mostra que os maus policiais pareciam não ter limites em sua audácia e sua ganância. E o mesmo se pode dizer dos bandidos, que se sentiam seguros com a proteção dos policiais, comprada a alto preço. Segundo o promotor Amauri Silveira Filho, do Gaeco de Campinas, as escutas telefônicas demonstraram que um dos líderes do PCC na região de Campinas, Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho, tinha planos para executar promotores que participavam das investigações juntamente com a Corregedoria da Polícia Civil.

O risco da corrupção não poupa nem mesmo as melhores e mais competentes polícias do mundo. A diferença dessas com relação às demais é a qualidade dos seus mecanismos de defesa contra esse mal. Mecanismos que se revelaram precários nesse lamentável episódio, que vai marcar por muito tempo a polícia paulista. É difícil de compreender como se chegou a essa situação. Por duas razões. A primeira é que o Denarc deveria merecer cuidados especiais, porque combate o tráfico de drogas, cujo enorme poder de corrupção é conhecido de todos. Por que isso não foi feito?

A segunda é que não faltaram antecedentes lamentáveis, que indicavam claramente a necessidade de fazer uma faxina em regra nesse departamento, antes que se perdesse o controle da situação, como aconteceu. Em 2009, o traficante colombiano Juan Carlos Abadia disse em depoimento à Justiça ter pago US$ 800 mil a policiais do Denarc. Em março deste ano, dois investigadores foram presos com 308 kg de cocaína desviados desse departamento.

Agora que a porta foi arrombada mais uma vez - e como -, o delegado-geral da Polícia Civil, Maurício Blazeck, promete que o Denarc vai ser reestruturado e modernizado, com mudanças em sua forma de agir, levando em conta os escândalos que o envolveram. Ainda bem. Mas é preciso ir fundo nessa reforma, porque o que está em jogo é a credibilidade da polícia, que já não é muito alta. Sem um mínimo de confiança da população, nenhuma polícia consegue cumprir a contento sua tarefa.

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