O etanol em crise

Há quatro anos, a produção nacional de etanol de cana-de-açúcar era considerada um sucesso - que não saiu de graça, considerados os custos dos subsídios ao Proálcool, lançado na década de 1970. Contudo, os investimentos feitos pelo setor sucroalcooleiro e a introdução de melhorias genéticas nas plantações permitiram a dispensa de subsídios e a preservação da paridade com o preço da gasolina. Com a introdução dos veículos flex ou bicombustíveis a partir de 2003, a produção de álcool avançou rapidamente, tendo alcançado 648,85 milhões de toneladas em 2008. Projeção feita na época pela Petrobrás era de que esse volume triplicaria até 2020, atendendo plenamente à demanda interna e transformando o Brasil em grande exportador mundial do produto.

O Estado de S.Paulo

06 Abril 2012 | 03h08

Em vez desse quadro, temos hoje a virtual estagnação da produção de álcool no País, refletindo a crise que se abateu sobre o setor, com o elevado endividamento de muitas usinas, várias delas colocadas à venda. Somente em São Paulo, que é o maior produtor nacional de etanol, entre 30 e 40 usinas (20% do total instalado no Estado) encontram-se nas carteiras de venda de corretores ou negociam acordos para fusões, parcerias ou incorporações. No Paraná, as coisas não são melhores: das 30 usinas do Estado, 3 unidades deixarão de moer cana na safra 2012/2013.

Esse novo quadro surge justamente em uma fase em que o petróleo alcança elevadas cotações - o que deveria tornar os biocombustíveis mais atraentes. A crise do etanol no Brasil também coincide com a decisão do governo dos EUA, por motivos fiscais, de eliminar o subsídio ao etanol de milho e acabar com a sobretaxa sobre o etanol importado, uma abertura que os produtores nacionais há anos reivindicavam.

Na realidade, o País hoje não tem etanol nem mesmo para atender à demanda interna. Há muitas usinas que, além de quebra de safras, não podem contratar novos financiamentos na rede bancária e não têm recursos para renovação da lavoura ou aquisição de equipamentos. Estão em melhor situação as usinas que tiveram meios para optar pelo aumento da produção de açúcar, aproveitando as altas cotações internacionais, reduzindo a produção de álcool combustível. Outras, as chamadas refinarias, não tiveram essa alternativa, e não puderam reajustar os seus preços para absorver o aumento de custos, em vista do virtual congelamento do preço da gasolina, que já dura seis anos. Como resultado, o álcool hidratado, cujo preço, para atrair consumidores, deve corresponder a 70% do da gasolina, perdeu mercado.

Tem havido um volume significativo de investimentos externos em refinarias de etanol, mas a aquisição de novos equipamentos está em queda. Os quatro projetos que entraram em operação em 2011 resultaram de decisões tomadas antes de 2008, como informa José Luiz Oliveira, vice-presidente da Dedini, indústria de equipamentos para a produção de etanol. "O que houve de lá para cá, foram apenas projetos de diversificação de empresas, nenhum de ampliação da capacidade", diz Oliveira. Com a queda de 73% de seu faturamento em relação a 2008, a empresa reduziu seu quadro de pessoal de 6.500 funcionários para 3.500.

Seria simplista dizer que, se o preço da gasolina for reajustado pelo governo, os problemas dos produtores de etanol desapareceriam. Por um certo prazo, pode ser que sim. Mas o que claramente está faltando é definir o papel do etanol na matriz energética brasileira. Uma coisa é produzir o volume de álcool anidro necessário à adição à gasolina, hoje na proporção de 20%. Outra, bem mais complexa, é tornar o álcool hidratado competitivo no mercado, o que exige garantia de abastecimento, com crescimento da produção e formação de bons estoques reguladores. Sem isso, a participação no mercado interno continuará muito instável, e será virtualmente impossível a conquista de mercados externos.

Infelizmente, a solução do problema do álcool não depende do livre jogo das forças de mercado e, sim, de uma decisão da cúpula do governo.

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