O euro e os limites da austeridade

As dificuldades da política econômica derivam tanto de interesses conflituosos e disputas ideológicas quanto das incertezas que cercam estimativas necessárias ao cálculo do impacto de diferentes medidas, como, por exemplo, o de uma redução do Imposto de Renda sobre o produto interno bruto (PIB). Você acredita que a redução do imposto aumenta a procura agregada se não for um neoclássico apegado à equivalência ricardiana, segundo a qual o impacto da redução do imposto é nulo, pois consumidores-contribuintes saberiam antecipar o aumento da dívida e dos impostos futuros.

Eliana Cardoso,

14 Novembro 2012 | 02h07

Deixando esse radicalismo de lado, suponha que o governo reduza os impostos em 1% do PIB. O impacto dessa redução será maior ou menor do que 1%? Depende do multiplicador keynesiano, que permite calcular o efeito final sobre o PIB do aumento inicial de gastos. Tradicionalmente, as estimativas do multiplicador nos EUA variavam em torno de 0,5. Se esse número estivesse correto, para cada aumento de gastos financiado por aumento da dívida e equivalente a 1% do PIB, o PIB aumentaria apenas em 0,5%, inchando a relação dívida/PIB.

Mas... Novidade das novidades! Um trabalho do Fundo Monetário Internacional (FMI) recalcula o valor do multiplicador, que seria agora igual a 1, podendo chegar a 1,7 (http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2012/02/pdf/text.pdf). Faz toda a diferença. Se o multiplicador na Grécia for qualquer coisa parecida com 1,7, as medidas de austeridade não podem pôr fim à crise. Ao contrário, apenas a tornarão mais grave.

Se não podemos ter certeza a respeito dos números, também não nos podemos surpreender com a divisão da opinião europeia entre os que acham que a austeridade vai matar o euro e os que afirmam que nela se encontra a salvação. Helga Hoffmann, na revista Política Externa (setembro/2012), resenha o livro de Thilo Sarrazin (Europa Braucht den Euro nicht) cujo título afirma que a Europa não precisa do euro. Sarrazin, apesar da fama de panfletário, desde que foi obrigado a se demitir do BundesBank atrai seguidores proclamando que é perigoso e prejudicial persistir no erro só porque um dia ali nos metemos. O Partido Social Democrata alemão, ao qual Sarrazin é filiado, tratou de se distanciar de suas posições, mas nem por isso ele está sozinho. Um manifesto de 172 economistas também rejeita a socialização das perdas e o resgate de bancos.

Um contramanifesto não se fez esperar, enquanto economistas estrangeiros também entraram na discussão. Barry Eichengreen, muito conhecido das páginas do Estadão, argumentou que para o euro sobreviver a região precisa de fiscalização bancária unificada e fundos comuns para a capitalização dos bancos. Só a Alemanha tem os recursos necessários. Se ela se decidir contra a união bancária, estará ameaçando o euro de morte, segundo Martin Wolf e George Soros. A Alemanha pensa que está a salvá-lo.

Uma das razões para a divergência de percepção e julgamento reside no fato de que a Alemanha ainda vai bem e os outros países da zona do euro vão mal. Desde o início da crise do euro, em 2010, a economia alemã cresceu mais de 7%, enquanto a maior parte do restante da Europa estagnou ou entrou em recessão. A Grécia contraiu-se em 17% em apenas três anos. Essas enormes discrepâncias se refletem no sentimento das pessoas. Segundo pesquisa da Pew Global Attitude, apenas 6% dos franceses e italianos se sentem bem com a condição econômica de seu país. Na Grécia esse índice fica perto de zero, enquanto 73% da população alemã está otimista. Tamanho bom humor estorva a urgência necessária para avançar nas medidas de ajuda aos vizinhos.

Fora da Alemanha, os analistas lembram que os desequilíbrios do comércio interzona do euro desempenharam papel importante na crise. Na década anterior os alemães pouparam e mantiveram salários competitivos. O excesso de poupança da Alemanha ajudou a alimentar o consumo insustentável na Grécia e a inflar bolhas imobiliários na Irlanda e na Espanha. As empresas alemãs venderam carros e máquinas/ferramentas para as economias na periferia da Europa e deixaram os países do sul com déficits externos insustentáveis. Agora as bolhas estouraram e o peso do ajuste se colocou sobre os países do sul. Mas o desalinhamento no comércio interzona do euro vem sendo corrigido. No ano passado apenas 7% do superávit externo da Alemanha veio do comércio com outros países da zona do euro. E o déficit comercial da Espanha com o restante da região vem se reduzindo.

Entretanto, essa melhoria não tem sido suficiente para recuperar a economia da Espanha, da Grécia e da Itália, que precisam de um euro mais fraco. A oferta do Banco Central Europeu de comprar dívida italiana e espanhola, que deveria ter enfraquecido o euro, parece ter contribuído para aumentar seu valor...

A saída estaria na reestruturação da dívida dos países europeus. Por enquanto, isso não vai ocorrer. Quando olhamos a situação da Grécia, entretanto, ela nos parece familiar - não apenas porque já se prolonga por dois anos, mas porque nos lembramos da crise da dívida na década de 1980 no Brasil e no restante da América Latina; os programas de austeridade e empréstimos de curto prazo do FMI de nada nos serviram e a recuperação só chegou com o perdão parcial das dívidas.

Atrás de portas fechadas, muitos europeus reconhecem a necessidade desse perdão, em particular com organismos oficiais. Em público a negam. Mesmo demonstrando disposição para conceder aos gregos mais tempo para programarem sua austeridade, Angela Merkel não vai discutir perdão de empréstimos oficiais e a Alemanha julgou os eurobônus inconstitucionais. Mas, apesar dos pesares, o Parlamento alemão aprovou o acordo de 29 de junho e as pesquisas revelam apoio à decisão. Nem tudo está perdido. Este foi um ano bissexto. Talvez 2013 nos traga melhores ventos.

* PH.D. PELO MIT,  É PROFESSORA TITULAR DA FGV-SÃO PAULO

SITE: WWW.ELIANACARDOSO.COM

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