O fascínio da reportagem

Recentemente, Leonencio Nossa, jornalista do Estado, recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo de 2014, o mais importante da imprensa brasileira. Leonencio foi premiado pelo caderno especial Sangue Político, publicado em 13 de outubro de 2013, no qual revela a extensão dos crimes de motivação política ocorridos no Brasil a partir de 28 de agosto de 1979, quando entrou em vigor a Lei de Anistia.

Carlos Alberto Di Franco, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2014 | 02h03

Por 17 meses o repórter da sucursal de Brasília pesquisou acervos de entidades de direitos humanos, arquivos de CPIs, delegacias de polícia e cartórios. Esteve em 35 cidades de 14 Estados. Chegou a 1.133 assassinatos por disputas políticas ao longo de 34 anos.

"Trata-se de trabalho jornalístico próprio, que não teve origem em investigações ou levantamentos do Ministério Público, das polícias e de outros órgãos do Poder Público", registrou a comissão julgadora. Reportagem pura. Pauta própria.

Segundo Leonencio, o levantamento foi a forma encontrada para superar a precariedade dos registros oficiais: "Nos inquéritos de crimes políticos, em 74% dos casos a polícia não consegue chegar à autoria dos crimes. O Ministério Público não transforma em denúncia mais de 80% dos inquéritos. E o Judiciário segue no mesmo ritmo". É o País sem retoques. O Brasil que precisa mudar.

Em seu discurso durante a cerimônia de premiação no Hotel Copacabana Palace, no Rio, Leonencio destacou a importância do profissional de imprensa no País: "Nunca o Brasil precisou tanto de repórteres. A informação é alimento da opinião, e não o contrário. O trabalho de repórteres nas regiões violentas nos dá consciência de que a desconstrução do jornalismo por políticos demonstra, antes de tudo, a visão de que a imprensa não tem história ou só existe nas metrópoles. Os nossos erros não justificam tentativas de desqualificar o ofício necessário". Foi aplaudido de pé.

Uno-me aos aplausos. Representam, estou certo, o sentimento de milhares de leitores. É uma comemoração do bom jornalismo e do que representa a alma da qualidade: a reportagem.

O público dos diários, independentemente da faixa etária, é constituído por uma elite numerosa, mas cada vez mais órfã de jornalismo com garra. Num momento de ênfase no didatismo, na infografia e na prestação de serviços - estratégias convenientes e necessárias -, defendo a urgente necessidade de complicar as pautas e investir poderosamente na reportagem. O leitor que devemos conquistar não quer, como é lógico, o que pode conseguir na internet. Ele quer conteúdo relevante: a matéria aprofundada, a reportagem interessante, a análise que o ajude, de fato, a tomar decisões.

Para sobreviverem os grandes jornais precisam fazer que seja interessante o que é relevante. O jornalismo deve ser feito para um público de paladar fino e ser importante pelo que conta e pela forma como conta. A narração é cada vez mais importante.

Quem tem menos de 30 anos gosta de sensações, mensagens instantâneas. Para isso a internet é imbatível. Mas há quem queira entender o mundo. E sempre haverá. Para estes deve existir leitura reflexiva, a grande reportagem. Será que estamos dando respostas competentes às demandas do leitor qualificado? A pergunta deve fazer parte do nosso exame de consciência diário.

Antes os periódicos cumpriam muitas funções. Hoje não cumprem algumas delas. Não servem mais para nos contar o imediato, o que vimos na televisão ou acabamos de acessar na internet. E as empresas jornalísticas precisam assimilar isso e se converter em marcas multiplataformas, com produtos adequados a cada uma delas. Não há outra saída!

O que se nota é que os jornais estão lentos para entender que o papel é um suporte que permite trabalhar em algo que a internet e a rede social não podem: a seleção de notícias, o jornalismo de alta qualidade narrativa e literária. Gay Talese, um dos fundadores do New Journalism (novo jornalismo) - uma maneira de descrever a realidade com o cuidado, o talento e a beleza literária de quem escreve um romance -, é um crítico do jornalismo sem alma e sem graça. É preciso "contar a história de uma forma que nenhum blogueiro faz, algo para ser lido com prazer". É para isso que o público está disposto a pagar. A fortaleza do jornal não é dar notícia, é se adiantar e investir em análise, interpretação e se valer de sua credibilidade.

Estamos numa época em que informação gráfica é muito valiosa. Mas um diário sem texto é um diário que vai morrer. O suporte melhor para fotos e gráficos não é o papel. Há assuntos que não é possível resumir em poucas linhas. Assistimos a um processo de superficialização dos jornais. Queremos ser light, leves, coloridos, enxutos. O risco é investir na forma, mas perder no conteúdo. Olhemos para o sucesso da revista britânica The Economist. Algo nos deveria dizer. Não é verdade que o público não goste de ler. O público não lê o que não lhe interessa, o que não tem substância, o que não agrega, não tem qualidade. Um bom texto, para um público que compra a imprensa de qualidade, sempre vai ter interessados.

Ninguém resiste ao fascínio da reportagem. Os jornais precisam, com urgência, recuperar a capacidade de surpreender o leitor. É preciso conquistar o leitor com matérias que rompam pautas previsíveis. É necessário investir em pautas próprias e acreditar na força da grande reportagem. O caderno especial Sangue Político não cresceu à sombra do declaratório que compõe o show midiático que domina Brasília. Foi garimpagem. Foi viajar aos recantos duros do Brasil real. Tem sabor de vida.

O leitor, em qualquer plataforma, evita os produtos sem alma. Quer pautas próprias. Quer um jornalismo rigoroso, mas produzido com paixão.

*Carlos Alberto Di Franco é doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra e diretor do departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais. E-mail: difranco@iics.org.br 

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