O Fed e a crise americana

A maior economia do mundo, a americana, perdeu impulso e quase encalhou depois de haver crescido no primeiro trimestre em ritmo equivalente a 3,7% ao ano. O novo dado reforça a expectativa de uma lenta recuperação da atividade global. Nos Estados Unidos, a taxa anualizada de crescimento ficou em 1,6%, nos meses de abril a junho, num cenário de moderação do consumo e recuperação tímida do investimento em máquinas, equipamentos e bens de informática. A estimativa inicial havia apontado um ritmo de 2,4% no segundo trimestre, mas uma revisão para menos era esperada, por causa de vários indicadores muito ruins - por exemplo, desemprego ainda acima de 9% e mercado imobiliário deprimido.

, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Afinal, o número divulgado na sexta-feira foi um pouco melhor que o previsto por muitos economistas do mercado financeiro, 1,3%. Isso chegou a dar algum alento às bolsas de valores, incluída a brasileira.

Mas o bom humor foi sustentado principalmente por outro fator: o discurso de Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed), no encontro anual com especialistas do setor em Jackson Hole.

O Fed ainda tem instrumentos para ajudar no esforço de recuperação da economia americana e seus dirigentes estão dispostos a usá-los. Em síntese, esta foi a mensagem transmitida por Bernanke. O pessoal do Fed poderá, portanto, fazer mais do que tem feito para cumprir a dupla missão de manter a estabilidade monetária e combater o desemprego.

Em sua última reunião, o comitê de política monetária manteve os juros básicos entre zero e 0,25% ao ano, como vem fazendo há muito tempo. Além disso, decidiu retomar a política de expansão monetária, aplicando em títulos do Tesouro o dinheiro recebido no vencimento de papéis ligados ao mercado de hipotecas. Esses papéis haviam sido comprados para facilitar a recuperação do setor.

Mas os sinais vitais da economia pioraram ultimamente. Isso levou os condutores da política monetária a discutir novas medidas - ou opções - para estimular a recuperação. Três opões foram consideradas: injetar dinheiro por meio de novas compras de títulos de longo prazo, adotar um novo estilo de comunicação com o mercado e baixar os juros pagos pela reserva excedente mantida pelos bancos no Fed.

Cada uma dessas medidas tem vantagens e custos e Bernanke examinou tecnicamente cada um dos pontos. O detalhe mais inusitado e de certo modo mais surpreendente é o da comunicação. O Fed tem anunciado, depois de cada reunião de política monetária, a manutenção de juros baixos "por um longo período". Uma alteração no texto poderia influenciar o mercado e destravar as operações de financiamento? Experiências desse tipo têm sido feitas por outros bancos centrais (BCs), observou Bernanke. O do Canadá tem apontado um prazo: os juros continuarão baixos - por exemplo - até o fim deste ano, dependendo da perspectiva da inflação. O BC japonês indica um evento: o juro zero será conservado até os preços ao consumidor pararem de cair ou até ocorrer um aumento na comparação anual.

O detalhe da linguagem pode parecer irrelevante, mas a administração de expectativas é uma das grandes ambições, talvez a maior, dos condutores da política monetária. O discurso de Bernanke é uma peça exemplar não só pela qualidade da exposição e da argumentação, mas também pela clareza na exposição dos problemas, das opções e até das incertezas dos condutores da política monetária.

Na sexta-feira, seu exercício de comunicação parece ter produzido os efeitos desejados. Nem todas as dúvidas do mercado foram eliminadas, mas alguns pontos ficaram bem estabelecidos: 1) o Fed fará o necessário para evitar uma deflação; 2) serão tomadas todas as medidas ao alcance da autoridade monetária para promover a recuperação da economia; e 3) rejeita-se desde já a ideia de se adotar uma meta de inflação mais alta, porque uma tolerância maior em relação à alta de preços minará a confiança dos mercados e a capacidade de planejamento das empresas e das famílias. Também esta determinação é exemplar.

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