O feudo de Kassab

Em partidos que têm dono, manda o próprio e obedece quem tem juízo. Foi o que demonstraram 14 em 15 membros da executiva nacional do PSD confeccionado pelo prefeito paulistano, Gilberto Kassab, ao ratificar a intervenção por ele ordenada no comando da legenda em Belo Horizonte. A exceção foi a senadora Kátia Abreu, uma das tantas figuras políticas que migraram do DEM para a nova sigla - de que Kassab é presidente no País, no Estado e no Município de São Paulo - contribuindo para dar-lhe a quarta maior bancada na Câmara dos Deputados, com 54 integrantes.

O Estado de S.Paulo

27 Julho 2012 | 03h07

Decerto mais do que arrependida pela mudança, a líder ruralista no Congresso também parece ter descoberto a pólvora ao acusar o prefeito de "caciquismo". A própria reunião em que o comitê central do kassabismo reafirmou o esmagamento dos correligionários da capital mineira, acusa a dissidente, teria sido uma armação, da qual se considera vítima, para que se fizesse a toque de caixa a vontade do controlador do partido. Mas essa é uma das formas como os caciques políticos impõem a sua hegemonia sobre os filiados que não se juntam à manada. As regras de operação dos partidos facilitam enormemente o exercício do poder de seus principais acionistas.

O caso de Belo Horizonte começou com uma trapaça. Orientado pelo ex-governador tucano e presidenciável Aécio Neves, o prefeito candidato à reeleição Márcio Lacerda, do PSB, desfez de uma hora para outra o trato com o PT, membro da heterogênea coligação que o elegeu em 2008, segundo o qual concorreriam em chapa única à Câmara Municipal. Para surpresa de muitos, a presidente Dilma Rousseff teve uma reação fulminante: fez o PT lançar a candidatura do ex-ministro do Desenvolvimento Social (no governo Lula) Patrus Ananias, acertou com o controlador do PMDB, o vice Michel Temer, a retirada do candidato partidário e o apoio a Patrus - e induziu Kassab a trocar o apoio a Lacerda pela adesão ao petista.

Faltou combinar com o seu pessoal de Belo Horizonte. A comissão provisória local do PSD não apreciou a imposição, preferindo continuar com Lacerda. Kassab, que está com o PT em todas as capitais, menos em São Paulo - na expectativa, ao que se diz, de se tornar ministro das Cidades em 2013 -, destituiu a instância. A política de mão pesada afastou do partido o seu segundo vice nacional, o ex-ministro Roberto Brandt, e converteu em dissidente a senadora Kátia. A Justiça Eleitoral mineira considerou ilegal a intervenção, permitindo ao PSD de Belo Horizonte manter-se alinhado ao prefeito Lacerda. Mas a palavra final será dada pelo TSE.

O dado subjacente à questão é estrutural: a eternização das comissões partidárias provisórias, sujeitas à dissolução ao talante dos suseranos das respectivas legendas e seus homens de confiança. Em 90% dos cerca de 4.700 municípios onde o PSD se organizou, são provisórias as comissões, cuja fragilidade começa pelo nome. Para comparar, levantamento do jornal Valor mostra que 55% das bases municipais tucanas são dirigidas por diretórios provisórios. No caso do PT e do PMDB, o índice supera 70%. Outras siglas enfeudadas como a de Kassab, com a agravante de que não nasceram ontem, a exemplo do PTB de Roberto Jefferson, o PR de Valdemar Costa Neto e o PV de José Luiz Penna, também mantêm a interinidade como regra: 81% no primeiro caso, 98% nos dois outros.

É bem verdade que, no plano estadual, o PSD só não constituiu diretórios em quatro Estados (Amapá, Pará, Maranhão e Rio Grande do Sul). Em Minas, a propósito, Kassab, o arquicentralizador, entregou as chaves do diretório a um empresário de sua intimidade, Paulo Safady Simão, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic). Foi ele que o prefeito pinçou para chefiar o comitê interventor na seção belo-horizontina da legenda. O fato de, pouco antes, Simão ter se solidarizado com Márcio Lacerda, o ex-aliado, não o impediu de dar meia-volta. "Regime de baronato" é como o ex-dirigente do partido Roberto Brandt classifica a estrutura kassabista de poder.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.