O fiasco de Temer e Macri

Se o encontro tivesse terminado apenas com abraços amigáveis e promessas de cooperação, sem nada mais concreto, o resultado teria sido mais animador

O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2017 | 03h00

Patético ou ridículo: o leitor pode escolher o adjetivo para qualificar a declaração conjunta publicada pelo Itamaraty depois da visita do presidente argentino, Maurício Macri, a seu colega Michel Temer. Ou pode usar os dois adjetivos, depois de uma segunda leitura, igualmente inútil, em busca de alguma novidade relevante no longo texto, composto por uma introdução de 4 parágrafos e mais 31 blocos temáticos formados por vários itens. Mas o próprio comunicado, é justo reconhecer, foi o resultado mais notável desse evento diplomático. Não deve ter sido fácil encher tantas páginas com tantas deliberações pífias atribuídas aos governantes das duas maiores economias do Mercosul. Exemplo: os dois presidentes, “com o objetivo de aprofundar a integração da infraestrutura física, instruíram ambas as chancelarias a reunir-se com os organismos pertinentes, durante o primeiro semestre de 2017, para analisar as estruturas das pontes que vinculam os dois países e avaliar a possibilidade de construção de novas pontes objeto dos acordos bilaterais vigentes”. 

Talvez nem Talleyrand e Metternich conseguissem, juntos, mobilizar recursos de imaginação suficientes para criar uma declaração tão longa a partir de tão pouca substância. O palavrório, no entanto, foi insuficiente para disfarçar o fracasso da reunião presidencial. Não se avançou um passo nos caminhos da integração comercial entre os dois países, nem, portanto, no rumo da revitalização do Mercosul. 

O bloco permanece pelo menos tão estagnado quanto na véspera do encontro. De fato, talvez esteja agora em pior condição, depois da exibição de conformismo, pelos dois presidentes, em relação aos entraves ao intercâmbio dentro do bloco. Brasil e Argentina continuarão sustentando, ninguém sabe por quanto tempo, o pacto de mediocridade no comércio bilateral de veículos e de autopeças. Além disso, continuarão sujeitos a entraves como a política argentina de licenciamento restrito de importações, incômoda para os empresários brasileiros, mas tolerada, na prática, por Brasília. 

Os dois presidentes concordaram, enfim, em “trabalhar em matéria de coerência regulatória para favorecer a fluidez e o incremento do intercâmbio comercial”. Em português corrente isso quer dizer: concordaram em realizar uma tentativa para harmonizar os mecanismos de proteção comercial dos dois países. 

Se o encontro tivesse terminado apenas com abraços amigáveis e promessas de cooperação, sem nada mais concreto, o resultado teria sido mais animador. Mas terminou com um compromisso de articulação de normas defensivas, como se o problema dos dois países fosse abertura excessiva ou insuficiente harmonia do sistema de barreiras. Não importa se o resultado refletiu uma semelhança de políticas ou se decorreu principalmente pelo protecionismo argentino, mais forte que os propósitos de liberalização anunciados há meses pelo presidente Macri. De toda forma, o fiasco tem a chancela do governo brasileiro. 

Se os dois governos são incapazes de iniciar políticas comerciais mais ousadas, mais abertas e mais voltadas para a busca interna de eficiência e competitividade, o interesse proclamado em acordos com parceiros mais integrados globalmente, como os membros da Aliança do Pacífico, tem pouco ou nenhum sentido prático. Também por isso é dificílimo levar a sério a consulta de Brasília ao empresariado nacional a respeito de possíveis acordos comerciais com a Coreia do Sul e com o Japão. 

O fiasco pode ter sido mais uma vitória do protecionismo argentino, além de mais uma demonstração de fraqueza do governo brasileiro. Mas foi, certamente, uma vitória argentina contra a pretensão brasileira a um lugar permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A reforma do Conselho é defendida em um parágrafo, mas nenhuma palavra menciona a pretensão brasileira. De novo a pergunta se impõe: qual a vantagem, para o Brasil, de permanecer numa união aduaneira emperrada, sem acordos com mercados importantes e incapaz de funcionar até num grau inferior de integração, como mera zona de livre-comércio? 

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